Resenha: Nada, de Janne Teller

“-Então por que todo mundo age como se aquilo que não é importante fosse muito importante enquanto estão ocupados fingindo que as coisas realmente importantes não são importantes?” (pág 19)

Livros instigantes são os meus favoritos. Nada, de Janne Teller é mais uma dessas histórias que mexem com nossos conceitos e valores. Quando li um texto sobre ele no Gato branco em fuligem de carvão, não pensei meia vez em lê-lo.

Pierre Anthon está no sétimo ano e tem a certeza de que nada na vida tem importância. Por isso, ele decide abandonar a sala de aula e passar os dias nos galhos de uma ameixeira, tentando convencer seus companheiros de classe a pensar do mesmo modo. Agora, diante da recusa do menino de descer da árvore, seus colegas farão uma pilha de objetos que significam muito para cada um deles, e com isso esperam persuadi-lo de que está errado.

A pilha começa com uma coleção de livros, uma vara de pescar, um hamster de estimação… Contudo, com o passar do tempo, os participantes se desafiam a abrir mão de coisas ainda mais especiais. A pilha de significados logo se transforma em algo macabro e doentio, que coloca em xeque a fé e a inocência da juventude.

Acredito que todas as pessoas, ao menos uma vez na vida, se questionaram o real significado de viver. Nada é justamente sobre isso. Pierre Anthon, um dos personagens, afirma: não existem coisas importantes. Um grupo de adolescentes, colegas de classe de Anthon, discordam disso e partem em busca do “significado”, juntando coisas supostamente importantes para cada um. E essa busca, que começa como uma simples brincadeira, acaba tomando proporções inimagináveis.

Confesso que, num primeiro momento, a escrita de Teller não me convenceu. O texto da autora é simples e sem muitos floreios. Agnes, a narradora da trama, nunca entra em muitos detalhes e não exprime forte personalidade. Contudo, aos poucos, percebi a real intenção de Teller: as palavras são mero instrumento, o que realmente importa são os fatos. E nossa, que fatos.

Eu me senti incomodado por boa parte da leitura. Nada te joga verdades a todo momento, coisas que preferimos fingir que não existem. A temática tem um ar depressivo, afinal os argumentos de Pierre Anthon são viscerais e convincentes. Mas o melhor ponto, para mim, foi o desespero dos personagens na busca do “significado”. Pouco a pouco, Agnes e seus amigos percebem que os objetos coletados não são lá muito importantes, logo eles aumentam seus parâmetros e a situação fica extremamente desconfortável. Cada novo item que o grupo decidia colocar na pilha me deixava mais chocado e incomodado, sentimentos esses potencializados pela frieza e naturalidade de Agnes relatar fatos brutais.

“Começamos a entender o que Pierre Anthon queria dizer. E começamos a entender por que os adultos tinham aquela aparência.
E, embora houvéssemos jurado que nunca seríamos como eles, havia acontecido. E sequer tínhamos 15 anos.
Treze. Quatorze. Adultos. Mortos.” (pág 111)

Esse desespero e essa angústia foram o que me fizeram gostar de Nada. É impossível não trazer o tema do romance para a nossa vida e refletir sobre a dualidade dos fatos retratados nele. O que é realmente importante? As coisas têm, de fato, significado? Como lidamos com o nosso Pierre Anthon? E o desespero de tentar provar algo para o mundo e para os outros? Reflexões dolorosas, mas importantes. Outro ponto que acredito ser interessante é a maneira que Agnes e seus companheiros resolvem o conflito, a dualidade desse momento é simplesmente perturbadora. Fato curioso: por conta de seu conteúdo, Nada causou muita controvérsia e chegou a ser banido temporariamente na Escandinávia, onde foi lançado originalmente.

Nada é um romance desconfortável e uma excelente leitura.

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5 comentários em “Resenha: Nada, de Janne Teller”

  1. Hey! Achei seu blog pesquisando sobre Daytripper e no fim das contas me apaixonei pelas resenhas e pelas fotos. Parabéns!!!!!

    Vim comentar em “Nada” pois peguei esse livro várias vezes na livraria e nunca levei. Achei a história meio tensa, interessante.

    Bom conhecer seu blog :)))))

    Abraços!

  2. pela sua descrição do livro ao dizer que o garoto sobe em cima de uuma árvore e não quer mais descer, me lembrou um livro que li recentemente, “O barão nas árvores” do Italo Calvino. O personagem principal também decide subir em cima de uma árvore e não descer nunca mais.

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