A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

Sempre gostei de tramas cujas narrativas são inusitadas, como Cloud Atlas. A Visita Cruel do Tempo é exatamente esse tipo de livro, cada capítulo é uma surpresa, pois as épocas e personagens abordados são sempre diferentes. E além de ser um ótimo mosaico, essa obra me fez refletir: qual foi o efeito do tempo até agora na minha vida?

Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e em garotinhas. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.

Confesso que o começo da história não me prendeu. Parecia mais um daquelas tramas sobre as pessoas e seus relacionamentos, contadas de uma maneira levemente confusa. Acredito que algo que contribuiu para essa impressão inicial foi o fato de ter lido O Torreão, outra obra da Jennifer Egan, e não ter gostado muito. Mas aos poucos eu fui me interessando mais e mais pelo universo criado pela autora.

Cada capítulo tem um protagonista diferente: a cleptomaníaca Sasha, o executivo de música Bennie, a assessora Dolly e muitos outros personagens. Alguns deles aparecem várias vezes durante o livro, mas sempre em épocas diferentes da vida, de forma não linear. No começo os fatos pareciam não fazer muito sentido, entretanto aos poucos fui relacionando os personagens e acontecimentos, montando um grande quebra-cabeça feito de fragmentos de vidas. A sensação de mini-histórias é reforçada pela narrativa variada: alguns capítulos são em primeira pessoa, outros têm a forma de diário e um é feito somente através de slides. É um recurso de narrativa interessante, por mais que a escrita simples de Egan não consiga aproveitar ao máximo os vários estilos.

visita_cruel_tempo_slide

Naturalmente me envolvi pela história e personagens, sempre ficando ansioso por saber a próxima pessoa a ser abordada pela autora. Minha única ressalva sobre A Visita Cruel do Tempo é o quanto Egan aprofundou a história de alguns personagens. Em muitos momentos, quando eu estava começando a me envolver com a pessoa, sua história simplesmente acabava e nunca retornava. Sim, alguns personagens são recorrentes, mas suas vidas são meio truncadas, lembrando um mosaico estranho. O tempo todo eu tentava montar os pedaços, tentando entender melhor alguns pontos, mesmo com as inúmeras lacunas. Talvez essa seja a intenção da autora: passar a sensação real do peso do tempo na vida de uma pessoa, afinal durante a nossa vida alguns detalhes se perdem e muitas coisas mudam, isso é algo natural.

A Visita Cruel do Tempo não é um livro fácil de entender, mas quem se aventurar vai possivelmente gostar. É necessário insistir um pouco e ter dedicação para poder entender a trama fragmentada. Para mim, a diversão foi justamente essa: montar os pedaços, preencher lacunas e tentar fazer com que o conjunto faça sentido. E claro, é difícil não se identificar com a mensagem sobre a passagem do tempo, afinal a vida de todas as pessoas costuma mudar significativamente com o passar dos anos. Se gosta de narrativas inusitadas, leia A Visita Cruel do Tempo sem medo, tenho certeza que não vai se arrepender.

      “Houve uma pausa durante a qual Sasha teve a nítida sensação da presença de Coz atrás dela, à espera. Queria muito agradá-lo, dizer algo do tipo: Foi um momento decisivo; tudo agora está diferente, ou então Liguei para Lizzie e finalmente fizemos as pazes, ou ainda Voltei a tocar harpa, ou simplesmente Estou mudando, estou mudando, estou mudando: mudei! Superação, transformação – Deus bem sabia quanto ela ansiava por essas coisas. A cada dia, a cada minuto. Todo mundo não ansiava por isso?
      – Por favor – disse ela a Coz. – Não pergunte como estou me sentindo.
      – Tudo bem – respondeu ele baixinho.
    Ficaram ambos sentados em silêncio, o silêncio mais longo que já houvera entre os dois. Sasha olhou para a vidraça da janela, continuamente varrida pela chuva, embaçando as luzes sob o crepúsculo. Permaneceu deitada com o corpo tensionado, apoderando-se do divã, de seu espaço naquela sala, de sua vista da janela e das paredes, do leve murmúrio que sempre havia ali quando ela escutava, e daqueles minutos do tempo de Coz: um, depois outro, depois mais outro.” (pág 23)

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3 comentários em “A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan”

  1. Farley!

    ‘A visita cruel do tempo’ foi um livro que li com deleite, com aquela sensação de que o que eu estava lendo era um pequeno recorte de trechos da minha vida. O que chega a ser curioso, porque, pelo que me lembro, não vivi nada remotamente parecido com o que os personagens do romance vivem. Acontece que a identificação que senti deriva do fato de que aqueles personagens da obra, assim como eu, assim como a humanidade inteira, eram constantemente assaltados pela consciência do tempo: a presença que o tempo tem nas nossas vidas, o que podemos fazer dentro desse tempo, o que não podemos fazer, o que as outras pessoas fazem conosco dentro desse tempo etc.

    Acredito que o sucesso do livro se deva a essa reflexão tão pertinente em nossa época.

    Outro ponto interessante da obra é a narrativa fragmentada – não só pelo fato de ser narrado em primeira, segunda e terceira pessoa, mas pela própria construção textual, o domínio do espaço narrativo de que a autora se utiliza. Veja que os capítulos são rápidos e totalmente diferentes uns dos outros assim como a nossa vida o é: momentos diferentes geralmente acarretam sensações diferentes e percepções diversas, às vezes efêmeras, o que nos dá a impressão de que estamos mudando com constância. A proposta do texto de Egan é refletir na escrita aquilo que vivemos no mundo real, nas nossas relações com o que nos cerca.

    Enquanto eu lia o livro (e principalmente depois que virei a última página), tive uma súbita e clara consciência do tempo que passa. Simplesmente isso. A obra meio que proporciona a sensação de que estamos sempre deixando um universo inteiro para trás e esse universo, composto por nossas paixões e preferências, não volta nunca mais. Ao mesmo tempo, nos dá a possibilidade de enxergar que existe um outro universo, não escrito, à nossa frente. É uma experiência dolorosa e ao mesmo tempo reconfortante, difícil de explicar. Paradoxalmente, todas as experiências dolorosas e reconfortantes nos dão uma compreensão mais exata da existência.

    Abraços!
    Marlo.

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