Cloud Atlas, de David Mitchell

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“He who would do battle with the many-headed hydra of human nature must pay a world of pain & his family must pay it along with him! & only as you gasp your dying breath shall you understand, your life amounted to no more than one drop in a limitless ocean! Yet, what is any ocean but a multitude of drops?” (pág 509)

Sempre gostei de uma história feita de várias outras pequenas tramas, interligadas ou não. Quando li a sinopse de Cloud Atlas, rapidamente me lembrei de Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, já que ambas as obras pareciam ter coisas em comum. Mesmo sem conhecer direito o autor, me aventurei nessa história e não me arrependo.

Cloud Atlas é composto de seis histórias. Um viajante atravessa o oceano Pacífico em 1850; um compositor deserdado consegue um trabalho precário em uma Bélgica pós guerra; uma jornalista entusiasmada com um grande furo na Califórnia de 1975; um editor orgulhoso fugindo de credores; uma atendente de lanchonete geneticamente modificada no corredor da morte e um jovem nas Ilhas do Pacífico testemunhando o cair da ciência e da civilização. Os narradores de Cloud Atlas ouvem os ecos de seus atos no corredor da história e os seus destinos são alterados de diferentes maneiras.

É necessário um pouco de insistência para gostar de Cloud Atlas. O começo, que trata do diário de Adam Ewing em uma viagem pelo Pacífico, não é interessante. Eu diria até que é enfadonho. Entretanto, aos poucos a trama vai fazendo sentido e você quer continuar a leitura. Quando você finalmente se envolve com Adam e seus tormentos, a história é interrompida bruscamente e um novo personagem é introduzido. E recomeça o processo de reconquista do leitor pelo autor e isso se repete por toda primeira metade do livro.

Abordar uma nova vida não parece nada de mais em um primeiro momento, mas aos poucos é possível notar ligações entre as histórias. Um exemplo é o compositor Robert Forbisher, protagonista da segunda história, que encontra o diário incompleto de Adam Ewing. Toda trama tem uma espécie de ligação com a anterior e todas elas estão amarradas de alguma maneira, mesmo se passando em épocas completamente diferentes e abordando assuntos distintos. Praticamente uma matrioshka.

Algo que gostei muito é que cada trama tem uma narrativa e estilo literário diferente: diários, cartas, romance policial, um interrogatório. O tom também varia: uma história é bem cômica, outra é meio filosófica, uma terceira é pura ficção científica. Isso faz com que cada parte seja única e completa por si só, uma bela coleção de estilos. Os protagonistas são bem construídos e rapidamente eu me apeguei a eles. Pode parecer que a obra não tem um tema geral, mas é possível perceber assuntos recorrentes abordados sutilmente pelo livro, como reencarnação e conflitos entre oprimidos e dominantes.

“Spent the fortnight gone in the music room, reworking my year’s fragments into a “sextet for overlapping soloists”(…), each in its own language of key, scale, and color. In the first set, each solo is interrupted by its sucessor: in the second, each interruption is recontinued, in order. Revolutionary or gimmicky? Shan’t know until it’s finished” (pág 445)

O preço de uma empreitada ousada como essa é a simplicidade. As histórias não são tão bem desenvolvidas e em alguns pontos eu senti que o autor correu para conseguir fechar aquele trecho. Outro problema é que as tramas são aninhadas, ou seja, apresentadas inicialmente até certo ponto e depois retomadas e concluídas na segunda metade do livro. Eu tive que voltar e reler algumas partes, pois já tinha esquecido vários detalhes. A qualidade das tramas também é bem variável: adorei a sociedade distópica de Sonmi, enquanto achei enfadonha o relato das sociedades tribais de Zachary.

Mesmo com alguns problemas, gostei muito de Cloud Atlas. A premissa inusitada, os vários personagens interessantes e as pequenas ligações escondidas pelo texto fazem com que a leitura seja bem prazerosa. Se você está com o inglês em dia e tem interesse por várias histórias interligadas, Cloud Atlas é uma excelente escolha.

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2 comentários em “Cloud Atlas, de David Mitchell”

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