1Q84, de Haruki Murakami

“You couldn’t begin to imagine who I am, where I’m going, or what I’m about to do, Aomame said to her audience without moving her lips. All of you are trapped here. You can’t go anywhere, forward or back. But I’m not like you. I have work to do. I have a mission to accomplish. And so, with your permission, I shall move ahead.” (p. 12)

Comemorei quando fiquei sabendo da existência de 1Q84, o romance mais recente do japonês Haruki Murakami, afinal o autor é um dos meus favoritos. Um sucesso no Japão, onde vendeu 1 milhão de cópias em um mês, 1Q84 é um dos trabalhos mais ambiciosos de Murakami, por conta dos assuntos abordados e do volume da obra. O tempo passou e a Editora Alfaguara ficou de lançar o livro em português em 2012, mas como a editora não atualizou o andamento da tradução, acabei lendo em inglês mesmo e não me arrependo.

A trama acompanha uma jovem chamada Aomame, que segue a enigmática sugestão de um taxista e começa a notar intrigantes discrepâncias no mundo à sua volta – até perceber que entrou em um universo paralelo. Enquanto isso, um aspirante a escritor chamado Tengo aceita um trabalho suspeito e sua vida começa a mudar. As narrativas de ambos convergem ao longo do ano de 1984, e surgem laços misteriosos que deixam os dois ainda mais próximos.

1Q84 segue a linha dos trabalhos anteriores de Murakami. Novamente, temos duas narrativas paralelas, que se tocam em alguns pontos, repletas de personagens solitários e de fatos inusitados e fantásticos. Mesmo com similaridades, o autor consegue construir uma trama única e que prende o leitor o tempo todo.

O ponto mais forte, sem dúvidas, são os dois protagonistas. Aomame e Tengo são muito bem construídos. Murakami mostra detalhadamente a vida deles, desde a infância até a vida adulta. O legal disso é que é possível perceber perfeitamente o motivo das ações e traços de personalidade de ambos, tudo é embasado pelos fatos do passado. O autor teve um cuidado especial em explorar bem as fraquezas e defeitos de cada um, tornando-os excepcionalmente reais e humanos. Os personagens coadjuvantes, em sua maioria, também são bem interessantes e explorados na medida certa, complementando a trama dos protagonistas. É impossível não se identificar com certas indagações e pensamentos dos personagens.

A trama em si não foge muito dos assuntos tratados anteriormente por Murakami, mas o diferencial fica por conta da abordagem. Aomame percebe que foi parar em um mundo paralelo, ao qual ela dá o nome de ‘1Q84’, uma versão alternativa do ano de 1984. Não é um lugar completamente diferente do normal, mas são justamente as sutilezas que mexem com a mente dos personagens, formando uma realidade angustiante, praticamente um jogo psicológico. Eu acabei também visitando este lugar inusitado, já que Murakami consegue fazer o próprio leitor se questionar, levando-o também para um outro mundo. E, claro, o nome é uma clara referência a 1984, romance de George Orwell, que influenciou alguns aspectos da trama de 1Q84.

“Most people are not looking for provable truths. As you said, truth is often accompanied by intense pain, and almost no one is looking for painful truths. What people need is beautiful, comforting stories that make them feel as if their lives have some meaning. Which is where religion comes from.” (p. 441)

Entretanto, nem tudo é maravilha e perfeição. 1Q84 apresenta alguns problemas que irritam. A começar pela duração do livro: são mais de 900 páginas, que no Japão foram divididas em três volumes. Não seria algo ruim se todo esse espaço fosse bem aproveitado, mas em muitos momentos Murakami enrola, com trechos que não adicionam absolutamente nada à trama. Uma sensação de déjà vu é inevitável, já que alguns assuntos e situações abordados nos trabalhos anteriores do autor reaparecem aqui. Mas o pior ponto é a repetição: alguns fatos são discutidos e detalhadamente dissecados repetidamente pela história, com pouquíssimas novas informações a cada abordagem, tornando o livro um pouco cansativo. Um texto mais enxuto e conciso com certeza tornaria a leitura bem mais prazerosa.

Algo digno de nota é o cuidado tomado com essa edição. A arte da capa é simples e reflete um pouco algumas questões da trama. Gostei muito dessas imagens que se completam. A diagramação interna também é simples, com alguns detalhes sutis, como números de página invertidos. Fico me perguntando se a edição brasileira vai ser interessante assim.

Mesmo com algumas ressalvas, 1Q84 é mais uma excelente obra do Murakami. Todas as principais características do autor estão retratadas nesse livro. É impossível não se perder nas vidas e questionamentos de Aomame e Tengo, enquanto vários enigmas vão sendo desvendados. 1Q84 é altamente recomendado 🙂

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2 comentários em “1Q84, de Haruki Murakami”

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