Mar de Papoulas, de Amitav Ghosh

“Os longamente planejados rituais de partida foram esquecidos na confusão, mas, estranhamente, aquela grande irrupção de atividade se tornou em si mesma uma espécie de culto, não tanto destinado a atingir um fim – seus fardos e bojhas eram tão pequenos e haviam por tantas vezes sido embrulhados e desembrulhados que não restava muito a ser feito com eles -, mas antes uma expressão de reverência, do tipo que poderia acolher uma revelação divina: pois quando é chegado um momento que é muito temido e tão longamente aguardado, ele perfura o véu da expectativa cotidiana de modo a revelar a prodigiosa escuridão do desconhecido.” (pág 387)

Depois de uma excelente surpresa com Maré Voraz, volto a ler uma nova obra do indiano Amitav Ghosh. Mar de Papoulas é o primeiro livro da trilogia Ibis e tem como pano de fundo a Índia do século XIX, um pouco antes da Guerra do Ópio.

Mar de Papoulas é um romance épico, cujo pano de fundo são as guerras do ópio na China e no Extremo Oriente no século XIX. Ele narra a jornada do navio Ibis, uma embarcação inglesa que se envolve no perigoso comércio do ópio com a China, e sua inusitada tripulação, formada por oficiais ingleses, um americano mestiço, escravos libertos, fugitivos e condenados – cada qual com suas ambições e seus dramas pessoais. Ghosh descreve desde as dificuldades dos plantadores de papoula na Índia – com sua tradição e seus amores proibidos – até as lutas e os desejos dos inusitados tripulantes do Íbis. Mar de Papoulas transporta o leitor a uma aventura histórica de grandes proporções, digna dos clássicos da literatura no século XIX. Primeiro livro de uma trilogia, é uma obra grandiosa, de personagens cativantes.

A principal qualidade de Ghosh é construir histórias intricadas a partir do ordinário, mas com uma escrita clara. Mar de Papoulas segue essa lógica até certo nível. São várias tramas paralelas, que de alguma maneira estão interligadas, com personagens que fazem parte de diferentes posições sociais, construindo um contraste interessante entre elas.

Num primeiro momento não me identifiquei com o livro. A narrativa inicia de maneira truncada e bagunçada, saltando entre os personagens e introduzindo novas informações em pontos estranhos. Ghosh acaba deixando alguns trechos um tanto quanto confusos, sendo isso acentuado pelo uso extensivo de termos náuticos e expressões nativas, sem detalhamento dos significados. E por fim diálogos bizarros acontecem, uma mistura estranha de termos que mal dá pra entender.

Mas conforme a trama avança, percebi que isso era intencional. Pouco a pouco as tramas vão se aproximando e a real intenção do autor vai surgindo. E é a partir daí que Mar de Papoulas fica realmente interessante e me prendeu.

É uma história que trata de questões sociais e igualdade, com um viés histórico por trás. De uma maneira ou de outra as pessoas retratadas estão tentando quebrar paradigmas e superar convenções. Isso é intensificado pelo fato de que os personagens são de universos completamente diferentes, resultando num grande contraste. A variedade é grande: um marinheiro americano, uma camponesa que trabalha na produção de ópio, um arrogante rajá, uma garota francesa e muitos outros personagens únicos. O autor consegue amarrar e relacionar tudo, brincando com as diferenças. E eu acredito que a questão da confusão é justamente fazer o leitor sentir essa mistura de culturas e ideais.

Outro ponto legal é acompanhar de perto a cultura da Índia. Costumes locais são retratados com riqueza e é possível sentir como era a vida naquela tempo. E mais uma vez aparece a questão de contrastes, já que a época retratada é justamente a da intervenção britânica, um choque de costumes. Eu mesmo em muitos momentos fiquei questionando todos essas convenções e surpertições, algo que até hoje ainda existe naquela região.

No mais gostei muitíssimo de Mar de Papoulas. Os personagens são memoráveis e a trama é única, mesmo que um tanto quanto simples na superfície. Não é um livro fácil de recomendar já que é necessário mergulhar na proposta do autor para aproveitar a experiência completamente. Já aguardo ansiosamente pelas continuações.

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4 comentários em “Mar de Papoulas, de Amitav Ghosh”

  1. Farley, mais uma vez eu repito: que bom que gostou do livro! Realmente é meio difícil recomendá-lo porque o leitor deve estar já previamente afinado com o tipo de história sobre o qual ele trata; do contrário, a tarefa de lê-lo pode ser tornar tortuosa até demais.

    Eu definiria ‘Mar de papoulas’ com a seguinte palavra: imersivo. À medida que as páginas vão passando, você vai mergulhando cada vez mais na atmosfera do romance, e isso é uma rara qualidade na literatura épica. Veja que, mesmo com esse começo “bagunçado”, você foi até o final. Isso porque a escrita do Ghosh de fato prende, de fato embebe o leitor do clima do enredo.

    Não sei se você percebeu, mas ‘Mar de papoulas’ traz uma profunda reviravolta no estilo do autor. Ele costumava escrever seus romances sempre lhes dando uma aparência tradicional (diálogos com travessão, pontuação adequada etc.), e nesse novo romance você vê um recurso literário mais sofisticado, mais “cult”. Não pude deixar de notar isso.

    Minha personagem preferida na história é a Paulette, não sei por quê. Acho que ela é uma espécie de personagem secundária que, no fundo, se você for analisar com cuidado, acaba sendo o eixo central do livro. Sem contar que é muito meiga, haha. Ouvi dizer que ela aparece brevemente no segundo volume.

    É isso. Abraços!

    1. Realmente, é importante essa questão do leitor saber mais ou menos o que lhe espera, senão não dá muito certo.

      Sim, eu notei essa maneira levemente diferente de escrita do Ghosh nesse livro, mas não vi muita lógica, já que ele usa essa nova maneira de diálogo sem muitos critérios.

      Sobre personagens… Eu comecei gostando muito da Deeti, mas depois me interessei pelo Neel. Sei lá, o rajá muda muito, acho que é um dos personagens que mais evolui. Já eu discordo que a Paulette é o eixo central do livro… eu diria mais que era o Zachary, por estar ligado a praticamente todos os outros personagens.

      Abraço!

  2. Olá.
    Depois de ler os comentários acima e o post me decidi por voltar a ler os livros da trilogia. Tive muita mas muita dificuldade com o Mar de Papoulas e acabei deixando-os de lado. Confesso que me sinto até mal de ler vossos comentários tendo em conta a enorme dificuldade que tive, rs. Mas vamos lá..vou retomar e espero em breve ter uma opinião favoravel.

    1. Olá Vanderleia 🙂

      Bem, eu acredito que existem livros e livros, alguns agradam a gente, outros não. Tem vezes que certas obras não agradam a gente, não importa o quanto a gente insista. Mar de Papoulas é um desses livros, pois não é uma leitura muito fácil ou simples. Lembro-me que tive que insistir na leitura para gostar e hoje percebo que ele não é para todo mundo.
      Torço para que você goste mais nessa nova tentativa de leitura 🙂

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