Resenha: Cabeça Tubarão, de Steven Hall

Senti aquela alfinetada de horror típica de quando percebemos a extensão de algo ruim – quando estamos perigosamente perdidos ou cometemos algum erro terrível -, a realidade de uma situação subindo pela nuca feito um Drácula de pantomima.
Eu não sabia quem eu era. Não sabia onde estava.
Simples assim.
Assustador assim.
(Pág. 13)

Um dos meus planos para esse ano era justamente reler alguns dos meus livros favoritos. Isso pois sei que agora minha mente é diferente e provavelmente eu veria coisas que não vi na primeira leitura. E o primeiro escolhido foi Cabeça Tubarão.

Certo dia, Eric Sanderson acorda sem vestígios de memória: não sabe quem é, onde está, nem como foi parar ali. Não encontra nenhuma foto ou documento com seu nome estampado. Como se não bastasse, começa a receber cartas de si mesmo. Guiado por elas, conhece uma psiquiatra, que o recebe no consultório com um diagnóstico tenebroso: amnésia dissociativa, uma forma rara da doença, que arrasta suas lembranças de volta à estaca zero toda vez que ele apresenta algum progresso. Segundo a médica, Eric perdeu a namorada há três anos em um acidente na Grécia, e desde então começou a apresentar lacunas na memória. A doença só piorou, e a cada recorrência – aquela seria a décima primeira – ele lembrava menos. Porém aos poucos Sanderson descobre que suas memórias não foram perdidas, mas devoradas por um tubarão de idéias que continua em seu encalço. Enquanto foge desse monstro feito literalmente de palavras, vai juntando as pistas de sua identidade perdida, com a ajuda das cartas que enviou para si mesmo do passado.

Cabeça Tubarão é um livro meio maluco. Você começa achando que é mais uma daquelas histórias “sou uma pessoa desmemoriada com passado estranho que vai sendo revelado aos poucos”, mas vai muito além disso. Sim, é necessário relevar alguns conceitos para entender e aceitar a trama. Hall teve cuidado minucioso de criar um universo único, com criaturas ‘conceituais’ e personagens inusitados. Outro cuidado do autor é também a maneira que ele conduz a trama: ele brinca com o leitor, instigando variadas possibilidades para os acontecimentos. É uma história que pode ser interpretada de várias maneiras, sendo que nenhuma delas é completamente certa ou errada, nunca temos respostas diretas.

Hall escreve muito bem. O texto é cheio de floreios e palavras teoricamente desnecessárias, mas dá o tom correto que ajuda a sustentar a trama e construir o clima. Mas não é uma leitura cansativa, pelo contrário, já que o ritmo é acelerado e os diálogos fluem muito bem, em ritmo de filme. Existem também várias referências à cultura contemporânea como livros, autores, filmes e música, como por exemplo Casablanca, Star Trek, O Mágico de Oz e (claro) Tubarão. Os personagens são bem mais complexos que aparentam, principalmente o protagonista Eric, todos eles com seus segredos e dúvidas.

Eric Sanderson. Quando me ouvi dizendo aquele nome, ele me soou sólido e real, bom e normal. Não era. Era a ruína de uma construção malfeita, janelas quebradas e lonas azuis balançando com o vento. Um terreno baldio. Vestígios de alguma coisa 90% destruída. (Pág. 15)

O maior trunfo de Hall na verdade está em sua capacidade de construir conceitos com facilidade, de uma maneira verossímil. Em nenhum momento achei estranho os variados “peixes conceituais”, “o não-espaço” ou os “samurais de palavras”, tudo parece natural. Um exemplo da capacidade do autor é um ponto do livro em que ele sugere a imortalidade através da replicação de ideias, é tão bem pensado que você fica se perguntando se realmente é possível. (Ouça esse trecho em inglês aqui )

Além disso tudo Cabeça Tubarão é uma história que vai além do livro. O autor foi bem ambicioso e espalhou pela internet diversas dicas que (supostamente) ajudam a entender melhor a história. A ideia é até boa: para cada capítulo existe um “não-capítulo”, ou “negativo”. Esses negativos foram espalhados pelas variadas edições do livro pelo mundo e o autor convida o leitor a ir atrás disso tudo. Sendo assim cada edição tem algum conteúdo exclusivo, normalmente um capítulo ou ilustração, no caso da versão brasileira é o capítulo exclusivo “Negativo 8”. Infelizmente já se passaram anos desde o lançamento do livro e pouquíssimos negativos foram descobertos. Outro ponto legal é o uso de imagens tipográficas e ilustrações pelo texto, estas enriquecem o livro e ajudam a criar uma forma gráfica das ideias do autor. Curioso que o site brasileiro de divulgação ainda existe e lá ainda estão disponíveis várias referências ao livro.

Ludovício, o tubarão conceitual

E uma última curiosidade que só descobri nessa releitura: “The Raw Shark Texts” é um trocadilho com “Rorschach Tests”, aquele teste psicológico no qual a pessoa tem que dizer o que vê naquelas imagens que na verdade são somente borrões de tinta. É uma referência clara ao livro, já que cada pessoa pode interpretar a trama de maneiras diferentes.

Foi excelente reler Cabeça Tubarão. Eu já tinha escrito algo sobre ele antes, mas agora percebo o quanto deixei passar. É um daqueles livros para ler mais de uma vez e discutir e pesquisar e mergulhar na trama. Recomendadíssimo 🙂

Nosso lugar no universo, o próprio universo, tudo se transforma velozmente a cada segundo. Neste planeta, avançamos e nunca mais retornamos. A verdade é que a imobilidade é uma utopia, um sonho. É uma idéia de luzes aconchegantes e familiares ainda brilhando nos lugares que fomos obrigados a abandonar. (Pág. 36)

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2 comentários em “Resenha: Cabeça Tubarão, de Steven Hall”

  1. Mais uma vez, eu TINHA que comentar! Somente pela sinopse, o livro já me ganhou, imagine então depois que eu li o restante da resenha. Agora só passa pela minha cabeça a ideia de que eu TENHO que comprar esse livro. Não só ler, comprar! Sou apaixonada por esse tipo de história e a escrita do autor me chamou muita atenção… Devo lhe parabenizer pela postagem, a altura do que a leitura promete 😉

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