O Temor do Sábio, de Patrick Rothfuss

-Não era inútil – protestei. – São as perguntas que não sabemos responder que mais nos ensinam. Elas nos ensinam a pensar. Se você dá uma resposta a um homem, tudo o que ele ganha é um fato qualquer. Mas, se você lhe der uma pergunta, ele procurará suas próprias respostas.
(…)
-Assim, quando ele encontrar as respostas – continuei -, elas lhe serão preciosas. Quanto mais difícil a pergunta, com mais empenho procuramos a resposta. Quanto mais a procuramos, mais aprendemos.
(pág 545)

O Nome do Vento foi um dos livros que mais gostei em 2010, sendo assim eu aguardava ansiosamente pela continuação. E depois de alguns atrasos finalmente O Temor do Sábio foi lançado e corri para ler.

Quando é aconselhado a abandonar seus estudos na Universidade por um período, por causa de sua rivalidade com um membro da nobreza local, Kvothe é obrigado a tentar a vida em outras paragens. Em busca de um patrocinador para sua música, viaja mais de mil quilômetros até Vintas. Lá, é rapidamente envolvido na política da corte. Enquanto tenta cair nas graças de um nobre poderoso, Kvothe usa sua habilidade de arcanista para impedir que ele seja envenenado e lidera um grupo de mercenários pela floresta, a fim de combater um bando de ladrões perigosos. Ao longo do caminho, tem um encontro fantástico com Feluriana, uma criatura encantada à qual nenhum homem jamais pôde resistir ou sobreviver – até agora. Kvothe também conhece um guerreiro ademriano que o leva a sua terra, um lugar de costumes muito diferentes, onde vai aprender a lutar como poucos. Enquanto persiste em sua busca de respostas sobre o Chandriano, o grupo de criaturas demoníacas responsável pela morte de seus pais, Kvothe percebe como a vida pode ser difícil quando um homem se torna uma lenda de seu próprio tempo.

Olhar para o livro pode assustar alguns: são exatas 960 páginas. Meu primeiro pensamento, baseado no que vi no primeiro volume, era que boa parte dessas páginas seria meio que enrolação, mas me enganei em boa parte. O estilo de Rothfuss melhorou consideravelmente e a narração está ainda mais fluída, você mal nota as páginas passando. O autor também foi inteligente e decidiu omitir fatos não tão importantes (no contexto da história Kvothe simplesmente diz para o Cronista que não era muito importante), evitando assim trechos desnecessários e possivelmente cansativos. Além disso não houve mais alterações no estilo da narrativa, contando ainda com um texto envolvente.

A trama em si é continuação dos relatos de Kvothe. Enquanto o primeiro livro tratava de sua infância, aqui acompanhamos sua adolescência e seu amadurecimento. Também conhecemos um pouco mais dos Quatro Cantos da Civilização, já que Kvothe viaja para a região leste deste mundo. Lá ele passa por todo tipo de situação e problema, enquanto continua buscando pistas sobre o Chandriano. Kvothe vai construindo aos poucos sua reputação de herói e mito, mesmo que para isso ele tenha que omitir e manipular certos fatos, mostrando o quanto ele também é falho e orgulhoso. É interessante também perceber o contraste entre os dois Kvothe através dos capítulos de interlúdio: o do passado é um jovem aventureiro e destemido; enquanto o do presente é somente um sopro do que já foi um dia, lamentavelmente simplório e sem esperanças.

Analisando com cuidado percebe-se que na verdade a trama é dividida em pequenas sub-histórias, quase independentes entre si, sendo que Rothfuss consege amarra-lás bem. Outro ponto interessante é o cuidado do autor em construir bem a cultura das várias regiões, mostrando com cuidado histórias e mitos de cada povo. Detalhes como a dinâmica da corte da região de Vintas, a ligação entre o mundo mortal e o mundo dos Encantados, os contos do Grante Taborlin (uma espécie de herói mítico nesse mundo), por exemplo, são explorados minuciosamente sem parecerem enfadonhos. Destaque principalmente para a região de Ademre, lá a cultura é completamente diferente e única.

Um ponto que não gostei tanto foi a questão da inserção de sexualidade na história: não foi de forma muito natural e acabou que Kvothe se transformou e acostumou com isso muito rapidamente. Em alguns poucos pontos a trama chega a ser um pouquinho arrastada sim, principalmente assim que Kvothe chega a Vintas e em seu encontro com a Feluriana. Além disso tudo flui bem.

O Temor do Sábio é um excelente livro. Rothfuss conseguiu expandir muito bem esse universo, mostrando mais e mais detalhes, tornando tudo muito rico. Estou muitíssimo curioso em relação ao próximo volume, quero saber o motivo da mudança de Kvothe e especulo também o que pode ser contado além de suas memórias. Para quem gosta de tramas de fantasia, O Temor do Sábio é altamente recomendado.

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5 comentários em “O Temor do Sábio, de Patrick Rothfuss”

  1. Por um tempo (longo tempo), deixei de fazer uma vizitinha aqui Faru!
    Acho que estive meio perdido mesmo. xD
    Mas enfim que bom que decidi dar uma passada e me relembrei de como era bom ler os seus textos. Ultimamente tenho lido mais e pretendo continuar e aumentar meu ritmo de leituras este ano. Espero que possamos compartilhar mais nossos assuntos, principalmente sobre os livros.
    Até mais.

  2. Na verdade absoluta, demorei algum tempo pra começar O Temor do Sábio, mesmo após ganhá-lo de presente, por intimidação de todas as 960 páginas. Achei, em alguns momentos, que a leitura se arrastaria sendo cansativa e se prendendo em fatos pouco importantes, mas em um conjunto achei que tudo foi absolutamente bem dosado.

    Por alguns segundos, ao chegar na cena em que o Kvothe começa a descobrir o sexo, imaginei se somente eu pensaria que as coisas foram apressadas demais, de maneira pouco convincente para alguém que corava com insinuações bobas. Isso, de certa forma, me decepcionou um pouco, pois se tratando de um personagem principal é algo que pode acabar deixando-o sem aquela pequena coisa que nos encanta, entre várias. Mas foi somente uma, de qualquer maneira. Kvothe continua sendo um dos meus personagens favoritos.

    Eu achei interessante você ter dito que, de certa maneira, são histórias paralelas dentro de um livro só, porque foi justamente dessa maneira que eu imaginei. Na Universidade, em Vitas, na Floresta… Enfim, tudo muito bem elaborado, na minha opinião. E, mesmo com todas as páginas, não achei a leitura cansativa em nenhum momento (e meus braços discordam, porque definitivamente é meio difícil segurar no alto um livro pesado como aquele!).

    Espero ansiosamente pela continuação.

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