Morte de Tinta, de Cornelia Funke

    O jovem olhou fixamente para ele – Quantos você já matou? – Sua voz soou reverente. (…) – Não tantos quanto jazem aqui. (…) – É fácil?
“Sim”, pensou Mo. “Sim, é fácil, quando começa a bater um segundo coração no seu peito, frio e afiado como a espada que você carrega. Um pouco de ódio e fúria, algumas semanas de medo e raiva desamparada, e ele já cresce em você. É ele que marca o compasso quando se trata de matar, selvagem e rápido. E somente depois você volta a sentir o seu outro coração, tão suave e quente. Ele se apavora com aquilo que você fez sob as batidas do outro. Dói e treme… mas isso vem depois.”  (pags 98-99)

Enfim o fim da história. Iniciei Coração de Tinta sem saber que se tratava de uma trilogia, fiquei muito surpreso com isso e gostei muito da evolução da série. Morte de Tinta, o terceiro e último livro da trilogia, fecha muito bem a história.

Em Morte de Tinta acompanhamos Mortimer, Meggie, Dedo Empoeirado, Fenóglio e os tantos outros personagens do Mundo de Tinta em sua batalha final contra Cabeça de Víbora, este último muito mais poderoso e influente depois dos acontecimentos de Sangue de Tinta. E para complicar ainda têm que lidar com Orfeu, mais um dos que têm o dom de transformar em realidade o que lê, que interfere na história da maneira que bem entende.

Aqui a trama é bem mais sombria e violenta, já que a principal cidade do Mundo de Tinta (Ombra) está sob domínio do Cabeça de Víbora e seus capangas e eles não têm compaixão nenhuma quando querem algo. A história já começa com combates sangrentos entre os ladrões liderados por Principe Negro e os seguidores de Cabeça de Víbora, já ditando o ritmo de toda a trama. Morte, traição e tristeza estão por todos os cantos, um cenário de medo desolação.

A maioria dos personagens teve uma boa evolução, dada às circunstâncias do mundo. Mortimer assume completamente o papel de Gaio, o salteador das canções, e se torna um assassino frio e calculista que só quer saber de proteger seus entes queridos (nada parecido com o ingênuo encadernador de Coração de Tinta). Já Meggie, assim como Resa, se sente angustiada por infelizmente não poder fazer muito para ajudar. Fenóglio ainda encara toda a situação como se fosse uma bela obra dele e se recusa a tentar ajudar com suas palavras, por mais que sinta raiva por Orfeu bagunçar sua história. Inclusive a melhor adição foi sem dúvidas Orfeu: orgulhoso e prepotente, acredita que é um deus e faz o que bem entende com a história, pouco se importando com as consequências. No mais são os vilões que ditam toda a história e eles fazem isso muito bem. Ah, os personagens secundários têm um bom desenvolvimento também.

O estilo de Funke teve uma leve mudada, para conseguir acompanhar o tom mais sombrio da história. Ela conseguiu explorar melhor suas virtudes como belas descrições e diálogos fluídos, enquanto focou o mínimo em questões problemáticas como descrições de batalhas e combates, mas mesmo assim conseguindo manter uma atmosfera de tensão e leve desolação. A trama também é mostrada por vários pontos diferentes (já que a maioria dos personagens está separada) e a narrativa é uma mistura de terceira pessoa com primeira pessoa, dando assim uma ótima idéia do que se passa na mente dos personagens em relação aos acontecimentos. O final é um pouco vago, mas acredito que tenha sido apropriado.

Morte de Tinta é um ótimo final para a trilogia. Com uma narrativa bem mais envolvente, personagens muito interessantes, um universo rico e muita dose de “imprevisibilidade sombria”, Funke conseguiu criar uma história fascinante. Recomendado!

Ele matou mais quatro soldados. (…) A fúria que Orfeu atiçava dentro dele o fazia atacar com tanta frequencia que suas roupas negras estavam banhadas em sangue. Negro. Seu coração se tornara negro com as palavras de Orfeu.
(…)Mais dois soldados… Apavorados, eles tropeçaram para trás ao vê-lo. Mate-os rápido, Mo, antes que gritem. Sangue. Sangue, vermelho como fogo. Não era o vermelho antes a sua cor preferida? Agora ele se sentia mal diante daquela visão. (pag 499)

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2 comentários em “Morte de Tinta, de Cornelia Funke”

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