Em uma noite sem luar, de Dai Sijie

Em cada traço branco representando um hutong figurava um nome, na escrita da época, sempre ornado com muito refinamento. (…). Alguns nomes, devido à composição de seu ideograma, brilhavam com uma elegância de nuanças delicadas, outros me enfeitiçavam com sua sonoridade sutil, sensual, às vezes exuberante, principalmente quando era ele quem os pronunciava, o meu Tûmchouq com seu belo sotaque pequinês. (pág 232)

Mais uma tarde passeando nas estantes de um sebo, mais um livro descoberto por acaso. Dessa vez a bela capa e a sinopse me chamaram a atenção.

Em uma noite sem luar narra a trajetória de uma jovem francesa que, fascinada pela cultura chinesa, se muda para Pequim em 1978. Ao se aventurar pelas ruas da cidade, ela conhece um jovem introvertido, que esconde uma difícil missão: encontrar a metade desaparecida de um misterioso manuscrito, descoberto por seu pai anos antes, e escrito em uma língua completamente desconhecida.

Ligados um ao outro por sentimentos cada vez mais profundos, ambos partem em busca do texto perdido. E acabarão por encontrar muito mais do que esperavam em uma arriscada – e imprevisível – jornada.

O que me chamou atenção nesse livro foi justamente essa sinopse, ela soa como uma “jornada” histórica incrível, repleta de mistério e paixão… mas não é bem isso o que acontece. “Em uma noite sem luar” é um romance bem parado, com história simples, mas cheia de nuances interessantes. Tem um foco histórico muito forte, remetendo ao período imperial da China, utilizando de fatos reais e fictícios para montar uma história inusitada.

Nunca tinha lido nada do Dai Sijie antes e fiquei com uma impressão mediana depois desse romance. Sijie, Chinês que conseguiu uma bolsa de estudos na França e se mudou para lá, tem um estilo de escrita um pouco detalhista demais para coisas não muito importantes. É muito comum ele descrever detalhadamente sobre coisas triviais como uma construção ou uma paisagem qualquer, detalhamentos esses que se estendem por parágrafos que duram páginas, sem adicionar praticamente nada à experiência. Sijie também gosta muito de misturar tipos diferentes de narrativa, saltando entre temas e estilos, o que deixa o texto confuso em alguns pontos. No fim das contas Sijie consegue amarrar bem tudo o que propõe, já que boa parte das coisas que são mostradas são realmente importantes para reconstruir o fio da trama.

Seus personagens num primeiro momento parecem ser ordinários e simples, mas conforme a trama avança percebi que na verdade eles são repletos de obsessões. A jovem protagonista francesa sem nome, por exemplo, está em uma constante fuga, incapaz de encarar seus reais medos e problemas, o que explica as inúmeras mudanças bruscas que ela faz. Já o chinês Tûmchouq compartilha um pouco dessa personalidade da francesa, mas prefere enfrentar tudo isso e tentar encontrar a verdade à sua maneira. Só ficou um pouco forçada a questão do amor ferrenho pelas línguas e caracteres, me soou estranho.

A parte histórica sem sombra de dúvidas é a melhor característica do romance. Sijie descreve de maneira soberba a maioria dos acontecimentos da família imperial da China, acontecimentos esses atrelados à trama da francesa e Tûmchouq e sua busca pelo texto do pergaminho. Esses fatos vão sendo mostrados em partes um tanto quanto desconexas, mas no final você acaba montando as peças do quebra-cabeça, se surpreendendo com o resultado. Ok, muita coisa é coincidência demais, mas não chega ao ponto de ser absurdo.

Agora o principal problema do livro são as partes finais. Depois de um acontecimento importante na trama tudo desanda e fica estranho. Sijie fica tateando no escuro, tentando dar uma forma concisa para a trama, mas o resultado é regular. A impressão é que ele fica enrolando com fatos irrelevantes, tentando dar um fim decente. A parte final então é pura coincidência e soa como algo forçado, sem contar o fim inconclusivo e repleto de pontas soltas.

No mais “Em uma noite sem luar” não é para qualquer um. Tem um ritmo arrastado e personagens que acabam não conectando com o leitor, mas ao menos tem uma parte histórica excelente. Recomendado para quem gosta da China e de sua história, caso contrário pense bem antes de escolhê-lo como próxima leitura.

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