O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino

Mini impressões para um mini livro 🙂

Uma freira confinada num convento cumpre a penitência de narrar a bizarra história de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro que se distingue pela impecável armadura branca – e pelo fato de não existir. Por defender a virgindade de uma donzela, Agilulfo se tornou paladino de Carlos Magno, posição que exerce com seriedade extrema. Mas aquele feito heróico é posto em dúvida. Para comprová-lo, Agilulfo sai em busca de uma virgindade perdida quinze anos atrás , e no caminho viverá aventuras engraçadíssimas, dignas de um ótimo romance de cavalaria às avessas.

É meio complicado de falar sobre ‘O Cavaleiro Inexistente’, já que ele não sabe muito bem o que quer ser. A trama fica saltando entre os vários personagens, só que nenhum deles se desenvolve suficientemente bem… fica a impressão de algo incompleto e um tanto quanto sem propósito.

O tema principal é a banalidade de atos supostamente nobres e importantes, como guerras e heroísmo, tudo isso num viés cômico. Os personagens são superficiais e meio clichês, mas mesmo assim são interessantes, na medida possível dos acontecimentos. Agilulfo mesmo é somente uma armadura que se move e é um cavalheiro metódico, muito chato e irritante por sinal, já que não tem uma “parte humana”. Já Bradamante é a cavalheira obcecada pela perfeição, enquanto ela mesma demonstra inúmeros defeitos. E Rambaldo, cavaleiro que busca uma vingança sem sentido… entre outros menores personagens.

A escrita de Calvino é leve e de fácil leitura, o texto flui bem. O único problema é a curta duração da trama, sendo que a história fica saltando entre os personagens, sem desenvolver. Eu mesmo esperava que Agilulfo fosse melhor trabalhado e suas origens fossem explicadas, assim como a maioria dos outros personagens, mas o foco fica por conta da trama.

Nada excepcional, “O Cavaleiro Inexistente” é um interessante passatempo.

Agilulfo arrasta um morto e pensa: “Ó morto, você tem aquilo que jamais tive nem terei: esta carcaça. Ou seja, você não tem: você é esta carcaça, isto é, aquilo que às vezes, nos momentos de melancolia, me surpreendo a invejar nos homens existentes. Grande coisa! Posso bem considerar-me privilegiado, eu que posso passar sem ela e fazer de tudo. Tudo – se entende – aquilo que me parece mais importante; e muitas coisas consigo fazer melhor do que aqueles que existem, sem os seus habituais defeitos de grosseria, aproximação, incoerência, fedor. É verdade que quem existe põe sempre alguma coisa de seu no que faz, um sinal particular, que não conseguirei jamais imprimir. Mas, se o segredo deles está aqui, nesse saco de tripas, muito obrigado, não me faz falta. Este vale de corpos nus que se desagregam não me prova mais que arrepios que o açougue do gênero humano vivo” (págs 49-50)

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