Admirável Idiota, de Shusaku Endo

Um homem que ama aos outros com a simplicidade do seu coração aberto, que confia nos outros, não importa quem eles sejam, mesmo quando é enganado e traído – um homem desses, no mundo de hoje, provavelmente é considerado idiota. E Gaston é assim. (pág 177)

Quebrando um pouco o ritmo de leitura, decidi ler “Admirável Idiota”, parecia ser um livro bem leve e não me enganei.

Um romance leve e pleno de humour, relatando-nos a história de um homem simples que ama os outros e confia em todos, e que, embora enganado e traído, mantém acesa a sua chama de amor e esperança. Homens assim, no mundo atual, são geralmente tidos como idiotas. Mas Gaston Bonaparte, um francês vivendo no Japão moderno, é um idiota fora do comum – um admirável idiota!

Admirável Idiota é uma mistura de assuntos, mistura essa agradável até certo ponto. Tudo começa quando Takamori recebe a notícia de que um francês que ele já tinha se correspondido por carta anteriormente estava indo para o Japão, sendo que este francês diz ser descendente de Napoleão Bonaparte. Sendo assim Takamori mobiliza a família a receber o nobre visitante… mas quando o indivíduo, de nome Gaston Bonaparte, chega ao Japão todos descobrem que ele mal lembra a nobreza e é um completo idiota e só consegue fazer trapalhada atrás de trapalhada, chegando a se envolver em situações muito complicadas e perigosas.

A impressão que eu tive inicialmente era que Gaston era taxado de idiota não por conta de ser ‘bobo’, mas sim por ele não conseguir compreender completamente a língua japonesa ao chegar ao Japão. Sim, não é somente por conta disso que ele é um idiota, mas também por conta do decorrer dos fatos e das ações escolhidas por ele. Gaston é um personagem simples e amável, que vai amolecendo todos os outros que se relaciona com ele, sendo que sua condição de “idiota” se dá por conta dele depositar sua confiança completamente nos outros.

Mesmo com situações iniciais bem leves e divertidas, o livro na verdade retrata um Japão pós guerra sujo, preconceituoso e sombrio. O autor se esforçou o máximo para mostrar um lado incomum do Japão. Outra questão abordada é o choque cultural, muito comum para pessoas que vão para outro país, ainda mais numa época que não existia maneiras de conhecer melhor a cultura de lugares distantes.

O que não gostei foi a progressão da história, assim como uma sensação de falta de propósito da trama. Começa como algo divertido (bem apoiado no choque cultural) e depois desenvolve em uma série de acontecimentos casuais. Os personagens mal evoluem e a motivação de seus atos são fracas também, salvo um único personagem que já era relativamente bem construído desde o início. E o final é bem enigmático, na verdade preguiçoso, já que usa de recursos para tentar esclarecer detalhes da trama de maneira rápida.

A melhor questão abordada por ‘Admirável Idiota’ é com certeza a simplicidade e confiança. Em um mundo que sempre as pessoas estão lutando para conquistar mais, ter mais, ser sempre o melhor, Gaston seria muito humilhado por ser simplório. É uma reflexão muito interessante sobre o quanto ser simples e comum é bom, um convite a pensar se não estamos somente acompanhando o rebanho de maneira cega e esquecendo de dar valor às coisas e pessoas realmente importantes.

Mesmo que seja uma mistura meio desbalanceada, ‘Admirável Idiota’ foi uma ótima leitura. A trama tem problemas de desenvolvimento, mas a reflexão proposta consegue compensar as falhas.

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