Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami


“Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda. Nossa existência é apenas um teatro de sombras desse princípio. O vento sopra. Há vendavais de furioso poder destrutivo, há brisas reconfortantes. Mas todo vento um dia cessa e desaparece. O vento não é matéria sólida.” pág 413

“Uau”. Foi a primeira palavra que surgiu na minha mente assim que terminei de ler Kafka à beira-mar. Murakami mais uma vez consegue criar uma história banal na superfície, mas repleta de personagens cativantes e lições interessantes.

Kafka à beira-mar são na verdade duas histórias. Kafka Tamura é um garoto de 15 anos que decide fugir de casa para tentar encontrar sua mãe e irmã, ao mesmo tempo que tenta escapar de uma estranha profecia proferida por seu pai. Satoru Nakata é um homem de sessenta anos que após um estranho incidente na infância perdeu a capacidade de ler e escrever, mas passou a poder conversar com gatos. Ele está em uma missão que nem ele sabe ao certo do que se trata.

Nessa obra Murakami utiliza novamente de duas narrativas paralelas, assim como em Hard-boiled Wonderland and The End of the World (e recentemente em 1Q84), mas sendo a ligação entre as tramas bem mais clara. Na verdade é uma história só, contada de ângulos diferentes e que se complementam. Por mais que inicialmente não pareça, os dois protagonistas estão em busca do autoconhecimento e de soluções para suas questões pessoais.

Os personagens são extremamente interessantes. Kafka, num primeiro olhar, pode parecer o típico protagonista ‘murakaniano’: introspectivo, calado e solitário… mas aos poucos sua real personalidade vai sendo explorada e ele se revela bem único e diferente desse estereótipo. Já Nakata é uma pessoa serena e cativante, fazendo amizades por onde passa (e com isso conseguindo avançar em sua “missão”). Um serve de contrapeso para o outro: enquanto Kafka está sempre preso ao seu passado e futuro, Nakata só tem olhos para o presente. E claro, existem outros vários personagens secundários que são tão bem construídos: o inusitado Oshima, a misteriosa Sra. Saeki, o tapado Hoshino, o “conceito” Coronel Sanders e até mesmo um Johnnie Walker (sim, o do whisky).

O desenrolar da trama acontece de forma natural, com a escrita suave e instigante do Murakami, de maneira lenta. Como sempre fatos bizarros, universos paralelos, personagens estranhos e eventos sem aparente explicação estão aos montes aqui, com muitos pontos aonde é difícil saber o que é real ou não. Um exemplo? Em determinado momento acontece uma chuva de sardinhas e cavalinhas. Acontece também da história do Nakata ser maior parte do tempo mais interessante do que a do Kafka, talvez por conta dos vários acontecimentos únicos e do dinamismo maior. Felizmente (ou seria infelizmente?) Murakami dessa vez sugere explicações demais, mas a conclusão fica por conta do leitor… já que boa parte dos fatos podem ter diversas interpretações. Mas Kafka à beira-mar não é para qualquer um (como boa parte das obras do Murakami), existem muito mais questões e ambiguidades do que respostas e conclusões, assim como a necessidade de aceitar o fantástico como algo completamente possível e se deixar levar pelas possibilidades.

No fim das contas Kafka à beira-mar foi uma leitura incrível.

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3 comentários em “Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami”

  1. Farley, depois que li essa sua resenha (um bom tempo atrás), coloquei na cabeça que tinha que ler esse livro. Nunca tinha ouvido falar de Haruki Murakami.
    Enfim comprei o livro. Acabei de ler agorinha e achei incrível também. Meu marido sempre me perguntando “Mas é sobre o que essa história?” e eu sem ter como explicar a loucura que é esse livro! Só lendo mesmo pra saber.
    Gostei muito.
    =)
    Bruna

    1. Nossa, é uma honra saber que você foi atrás do Murakami por conta da minha resenha, fico muito feliz =D

      E realmente, Murakami é meio indescritível, só lendo mesmo pra sentir realmente como é o autor. E que bom que você gostou também, recomendo altamente os outros trabalhos dele (o que não conta muito, já que sou viciado nele, haha)

      Abraço!

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