Após o Anoitecer, de Haruki Murakami

Depois de Hard-Boiled Wonderland and The End of the World (que infelizmente ainda não foi publicado no Brasil) me tornei fã de Haruki Murakami. É incrível a maneira que ele consegue transformar fatos banais em coisas extraordinárias, assim como seus personagens relativamente simples e comuns, que são tão verossímeis que parecem reais… Sem contar o surrealismo e a melancolia que estão sempre presentes em suas obras. Sendo assim fui surpreendido por Após o Anoitecer, que me mostrou um lado que eu não conhecia do autor.

Em Após o Anoitecer acompanhamos uma jovem chamada Mari Asai durante uma madrugada. Mari não quer voltar para casa por conta de vários motivos pessoais e prefere passar a madrugada por aí, sendo que a sua intenção inicial era somente ler quieta em uma lanchonete. Mas acontece que Mari acaba se envolvendo em vários acontecimentos e conhece várias pessoas, o que torna esta madrugada única e especial. Conforme a madrugada vai passando vamos acompanhando a pequena odisséia de Mari e de outros vários desconhecidos, que de uma maneira ou de outra têm suas histórias entrelaçadas.

A primeira característica já interessante pra mim aqui é a narrativa: ao invés da usual primeira pessoa que o Murakami adota na maioria de suas obras aqui acompanhamos a história em terceira pessoa, alguém de fora, um “ponto de vista” como o próprio Murakami define. Isso dá um ar bem mais impessoal e dá um certo ‘mistério’ aos personagens, já que não sabemos com exatidão o que se passa na cabeça deles e nem o que eles estão realmente sentindo. A história também acontece num espaço reduzido de horas, representado por um relógio no iníco de cada capítulo, sendo a narrativa também embalada por canções espalhadas pelas ‘horas’ (normalmente estilos melancólicos como Jazz, mas me surpreendi ao ver uma canção de Suga Shikao mencionada). E o foco de cada intervalo de tempo nunca é no mesmo lugar, dando mais dinamismo à história.

Mais uma quebra de estilo interessante aqui são os personagens: inicialmente pode parecer que Mari é a personagem principal, mas todos os outros personagens pseudo-secundários são igualmente interessantes e quase igualmente bem construídos. Mesmo que a relação entre alguns deles seja mínima, é muito bom acompanhar suas histórias, mesmo que simplistas e numa primeira ótica meio ordinárias. E uma característica forte do Murakami está em quase todos eles: pessoas comuns, mas altamente melancólicas e solitárias, com complexas personalidades por dentro. O surrealismo também existe na forma de Eri Asai, e é legal também como a personagem é trabalhada na história já que teoricamente ela não ‘participa’ dos fatos.

Mesmo com todas essas qualidades o livro não é tão bom assim. Não sei, talvez tenha faltado um pouco de foco, trabalhar um pouco melhor alguns personagens (Kaoru e Shirakawa, por exemplo, que tinham potencial muito bom). A história se passa em somente uma madrugada, é tempo suficiente sim para construir os personagens, mas as situações e acontecimentos são curtos e poderiam ter mais destaque também. Não que o final deixe a desejar, mas fica a impressão que tudo poderia ser explorado um pouco mais… quem sabe um dia inteiro ao invés de somente uma madrugada?

De qualquer maneira Após o Anoitecer é uma ótima e rápida leitura. Murakami aqui mostra um pouco de sua flexibilidade em um mundo que não pára nem quando estamos dormindo, explorando a individualidade de cada um e expondo um universo frenético e único, nos convidando a refletir sobre tudo isso.

Destaco também a bela capa do livro, assim como todas as capas dos outros romances do Murakami publicados aqui no Brasil pela Alfaguara. Muito boas!

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6 comentários em “Após o Anoitecer, de Haruki Murakami”

  1. Mari sou eu!!! hehehe Mas eu não sou a do livro hehehhe, as madrugadas são as melhores, as poucas horas que acontecem tantas coisas são as mais intensas!! Parece bem legal o livro!!! Faru parabéns pelo Blog!! Bejim

  2. Olá, amigo!
    Estou comentando aqui no post do Murakami mas, na verdade, quero falar sobre a sua resenha do Ensaio Sobre a Cegueira – fiquei com receio de que você não fosse mais ler os comentários lá postados, dado o grande espaço de tempo em que o post já foi escrito.

    Em primeiro lugar, achei bem interessante você separar a sua avaliação em duas partes: a primeira falando sobre o estilo de escrita do autor e a segunda falando sobre o livro em si. Eu faço a mesma coisa – para mim, o estilo de escrita de um livro é essencial.

    Detesto a escrita do Saramago. Já li dois livros dele, mas parei por aí. Simplesmente não dá para ficar encarando aqueles parágrafos gigantescos página após página. Haja saco.

    A história do livro e a idéia geral me pareceram bem interessantes, mas as personagens realmente são superficiais demais e quase chegam a ser transparentes – com a exceção da mulher do médico, claro. Enfim, o filme é bem melhor. Vale a pena ver apenas para julgar melhor a obra. ^^

    Abraços, e adicionei o seu blog na minha lista de favoritos. 🙂

    1. Nada, eu ia comentar lá normalmente =)

      Interessante ver que você pensa praticamente o mesmo sobre o autor e a obra… não entendo então o motivo lá no Skoob dele ser tão endeusado, se bobear o povo nem leu o livro.

      Sobre o filme todo mundo já me falou que é muito melhor e interessante… Acho que vou dar chance pra ele.

      T+!

  3. Olá de novo! rsrs
    Talvez a qualidade que mais tenha chamado a minha atenção, no final do Após o Anoitecer, seja o caráter conclusivo, mesmo. Achei isso legal em se tratando de Murakami.

    Quanto ao Minha Querida Sputnik, não é nem que eu não tenha me interessado efetivamente pela história… Acontece que, na época, havia outros do Murakami que chamaram muito mais a minha atenção; assim, deixei Sputnik de lado. Mas, naturalmente, pretendo lê-lo, sem dúvidas!

    Abraços!

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