Análise: Sakura Samurai: Art of the Sword

E a safra de bons jogos de eShop continua. Depois do excelente Pushmo e do bom Mighty Switch Force, o próximo destaque foi Sakura Samurai: Art of the Sword.

Em Sakura Samurai controlamos um jovem samurai que tem como missão resgatar a princesa Cherry Blossom, princesa esta que foi capturada por um lorde maligno. O importante aqui é esquecer outros jogos de samurai como Sengoku Basara, onde a ação é desenfreada e os personagens fazem ataques incríveis. Precisão e simplicidade são os principais objetivos em Sakura Samurai. A jogabilidade consiste em basicamente atacar no momento certo e somente quando necessário. Para isso é importante observar os ataques inimigos, esquivar e em seguida atacar. É um conceito simples, mas na prática é bem mais difícil do que parece e morrer é algo que acontece muito. A dificuldade é crescente: conforme avança novos inimigos com diferentes armas e padrões de ataque mais complexos vão aparecendo. Ao menos é possível utilizar itens que ajudam no combate.

Existe um incentivo para que todos os ataques sejam executados de forma perfeita: a cada movimento de esquiva executado com sucesso o jogador ganha um Precision Point, pontos estes que podem ser trocados por dinheiro. Quanto mais pontos acumulados maior é a recompensa, mas basta somente um erro para que todos os pontos sejam perdidos. Claro que é possível simplesmente ficar esquivando interruptamente para acumular pontos de precisão rapidamente, mas ao abusar da esquiva os inimigos ficam irritados e passam a ser bem mais agressivos, aumentando drasticamente a chance de cometer um erro e perder todos os pontos.

O jogo é dividido em fases curtas, nas quais é necessário derrotar um ou mais grupos inimigos para avançar. Existem também cidades que oferecem alguns serviços como lojas de itens, hotel (para recuperar a energia e salvar o progresso) e ferreiro (afia e melhora o corte da espada). Nas cidades é possível jogar alguns minigames que também envolvem atacar com precisão, sendo possível ganhar alguns itens e ataques especiais no processo. No fim de cada área está o castelo do lorde maligno da região, nestes castelos enfrentamos vários grupos de inimigos e um chefe no final. Os chefes oferecem um desafio considerável com padrões de ataques bem mais difíceis de entender e escapar.

Tecnicamente Sakura Samurai não é um jogo muito excepcional. Os graficos são medianos, lembrando jogos de algumas gerações atrás com modelos e texturas simples, sendo um exemplo claro o horrível mapa… ao menos o jogo usa de profundidade de campo para ajudar a esconder esses defeitos. Os cenários não têm muita variedade, não passam de grandes espaços vazios com inimigos espalhados, com pedras ou grama espalhados ocasionalmente. O efeito 3D é até bom, com alguns efeitos interessantes como pétalas de cerejeira caindo dos inimigos derrotados e objetos quase que saltando para fora da tela, mas o principal uso continua sendo a sensação de profundidade. A música é bem agradável e tem como tema o Japão feudal, com toques de dinamismo durante as batalhas, mas infelizmente não é muito memorável.

Um ponto importante é o fator replay, já que Sakura Samurai oferece alguns modos além do modo principal. Existem 3 modos survival no qual é necessário derrotar uma quantidade específica de inimigos (30, 50 e 100 inimigos) no menor tempo possível. Outro desafio é a campanha difícil, na qual a quantidade de corações é limitada em três e os inimigos são bem mais agressivos e fortes. Por fim está disponível também o Rock Garden, um pequeno jardim no qual o jogador ‘dedica’ os passos acumulados pelo 3DS para fazer florescer cerejeiras e melhorar o jardim. Estes modos ajudam a manter a longevidade do jogo.

Mesmo com alguns poucos defeitos, Sakura Samurai: Art of Sword é um jogo bem divertido. Com sua dificuldade moderada (e quase frustrante em alguns momentos) pode não ser apreciado por todos, é um jogo que demanda calma e atenção. No mais é um lançamento de eShop bem completo, recomendado :]

Sakura Samurai: Art of Sword está disponível no Nintendo eShop. Site oficial aqui.

Cabeça Tubarão, de Steven Hall

Senti aquela alfinetada de horror típica de quando percebemos a extensão de algo ruim – quando estamos perigosamente perdidos ou cometemos algum erro terrível -, a realidade de uma situação subindo pela nuca feito um Drácula de pantomima.
Eu não sabia quem eu era. Não sabia onde estava.
Simples assim.
Assustador assim.
(pág 13)

Um dos meus planos para esse ano era justamente reler alguns dos meus livros favoritos. Isso pois sei que agora minha mente é diferente e provavelmente eu veria coisas que não vi na primeira leitura. E o primeiro escolhido foi Cabeça Tubarão.

Certo dia, Eric Sanderson acorda sem vestígios de memória: não sabe quem é, onde está, nem como foi parar ali. Não encontra nenhuma foto ou documento com seu nome estampado. Como se não bastasse, começa a receber cartas de si mesmo. Guiado por elas, conhece uma psiquiatra, que o recebe no consultório com um diagnóstico tenebroso: amnésia dissociativa, uma forma rara da doença, que arrasta suas lembranças de volta à estaca zero toda vez que ele apresenta algum progresso. Segundo a médica, Eric perdeu a namorada há três anos em um acidente na Grécia, e desde então começou a apresentar lacunas na memória. A doença só piorou, e a cada recorrência – aquela seria a décima primeira – ele lembrava menos. Porém aos poucos Sanderson descobre que suas memórias não foram perdidas, mas devoradas por um tubarão de idéias que continua em seu encalço. Enquanto foge desse monstro feito literalmente de palavras, vai juntando as pistas de sua identidade perdida, com a ajuda das cartas que enviou para si mesmo do passado.

Cabeça Tubarão é um livro meio maluco. Você começa achando que é mais uma daquelas histórias “sou uma pessoa desmemoriada com passado estranho que vai sendo revelado aos poucos”, mas vai muito além disso. Sim, é necessário relevar alguns conceitos para entender e aceitar a trama. Hall teve cuidado minucioso de criar um universo único, com criaturas ‘conceituais’ e personagens inusitados. Outro cuidado do autor é também a maneira que ele conduz a trama: ele brinca com o leitor, instigando variadas possibilidades para os acontecimentos. É uma história que pode ser interpretada de várias maneiras, sendo que nenhuma delas é completamente certa ou errada, nunca temos respostas diretas.

Hall escreve muito bem. O texto é cheio de floreios e palavras teoricamente desnecessárias, mas dá o tom correto que ajuda a sustentar a trama e construir o clima. Mas não é uma leitura cansativa, pelo contrário, já que o ritmo é acelerado e os diálogos fluem muito bem, em ritmo de filme. Existem também várias referências à cultura contemporânea como livros, autores, filmes e música, como por exemplo Casablanca, Star Trek, O Mágico de Oz e (claro) Tubarão. Os personagens são bem mais complexos que aparentam, principalmente o protagonista Eric, todos eles com seus segredos e dúvidas.

Eric Sanderson. Quando me ouvi dizendo aquele nome, ele me soou sólido e real, bom e normal. Não era. Era a ruína de uma construção malfeita, janelas quebradas e lonas azuis balançando com o vento. Um terreno baldio. Vestígios de alguma coisa 90% destruída. (pág 15)

O maior trunfo de Hall na verdade está em sua capacidade de construir conceitos com facilidade, de uma maneira verossímil. Em nenhum momento achei estranho os variados “peixes conceituais”, “o não-espaço” ou os “samurais de palavras”, tudo parece natural. Um exemplo da capacidade do autor é um ponto do livro em que ele sugere a imortalidade através da replicação de ideias, é tão bem pensado que você fica se perguntando se realmente é possível. (Ouça esse trecho em inglês aqui )

Além disso tudo Cabeça Tubarão é uma história que vai além do livro. O autor foi bem ambicioso e espalhou pela internet diversas dicas que (supostamente) ajudam a entender melhor a história. A ideia é até boa: para cada capítulo existe um “não-capítulo”, ou “negativo”. Esses negativos foram espalhados pelas variadas edições do livro pelo mundo e o autor convida o leitor a ir atrás disso tudo. Sendo assim cada edição tem algum conteúdo exclusivo, normalmente um capítulo ou ilustração, no caso da versão brasileira é o capítulo exclusivo “Negativo 8”. Infelizmente já se passaram anos desde o lançamento do livro e pouquíssimos negativos foram descobertos. Outro ponto legal é o uso de imagens tipográficas e ilustrações pelo texto, estas enriquecem o livro e ajudam a criar uma forma gráfica das ideias do autor. Curioso que o site brasileiro de divulgação ainda existe e lá ainda estão disponíveis várias referências ao livro.

Ludovício, o tubarão conceitual

E uma última curiosidade que só descobri nessa releitura: “The Raw Shark Texts” é um trocadilho com “Rorschach Tests, aquele teste psicológico no qual a pessoa tem que dizer o que vê naquelas imagens que na verdade são somente borrões de tinta. É uma referência clara ao livro, já que cada pessoa pode interpretar a trama de maneiras diferentes.

Foi excelente reler Cabeça Tubarão. Eu já tinha escrito algo sobre ele antes, mas agora percebo o quanto deixei passar. É um daqueles livros para ler mais de uma vez e discutir e pesquisar e mergulhar na trama. Recomendadíssimo :)

Nosso lugar no universo, o próprio universo, tudo se transforma velozmente a cada segundo. Neste planeta, avançamos e nunca mais retornamos. A verdade é que a imobilidade é uma utopia, um sonho. É uma idéia de luzes aconchegantes e familiares ainda brilhando nos lugares que fomos obrigados a abandonar. (pág 36)

Site oficial