No alto-mar o ar era fresco, as feridas cicatrizavam mais depressa, e o silêncio era suficientemente intenso para tornar suportáveis as perguntas sem resposta e justificar os próprios silêncios. (pág 28)
Visitando um sebo recentemente acabei encontrando ‘A Carta Esférica’. Li a descrição, parecia muito interessante, levei. Uma pena que ele me decepcionou muitíssimo.
Um marinheiro desempregado e uma historiadora se unem para encontrar um tesouro que naufragou com um barco no ano de 1767.
De posse de mapas e instrumentos náuticos do século XVIII, bem como documentos históricos da Marinha e da Companhia de Jesus, marinheiro e historiadora vão atrás do tesouro perdido no Mediterrâneo.
‘A Carta Esférica’ tinha tudo para ser ao menos bom, não tem muito erro quando se trata de caçadas a tesouros perdidos. O problema ficou justamente por conta da maneira que o autor conduziu a história, o que a deixou massiva e enfadonha.
O principal problema é a mania do autor de escrever coisas fora do contexto, tentando enriquecer os personagens com flashbacks meio aleatórios, mas isso faz é deixar a narrativa confusa e cansativa. Cansativa pois os trechos são longos e com floreios um tanto quanto desnecessários, é difícil as vezes manter o foco, sem contar que eles são inseridos ao acaso dentro do texto, quebrando o fluxo da narrativa.
Outro problema é a insistência em focar no naufrágio, em seus envolvidos e nos fatos históricos relacionados ao invés de desenvolver a trama do presente. O autor parece tão obcecado por isso que o naufrágio é mostrado várias e várias vezes durante o texto, mesmo eu já sabendo de cor os fatos. Acabou que eu sabia muito bem o que aconteceu com o navio Dei Glória e seus tripulantes, mas não ficou muito claro certas motivações dos personagens principais.
Some isso ao texto prolixo, no qual o autor parece não ter muito controle do narrador de foco errático, e uma enxurrada de termos técnicos sem explicação e o caos está feito.
Ao menos gostei muito de Coy e Tánger Soto, os personagens principais. Mesmo com tantos desvios na narrativa os dois são muito bem construídos. Gostei principalmente da personalidade de mulher “forte, independente e misteriosa” de Tánger, alguém que está sempre no controle, por mais que no fim das contas não dá pra entender muito bem certas atitudes dela. Como em um trecho no qual ela meio que se descreve (a personalidade dela é a da mulher com o rifle):
-Vendo esses filmes (de faroeste) – prosseguiu -, percebi que há dois tipos de mulher: a que começa a gritar quando os apaches atacam, e a que apanha um rifle e dispara pela janela.
Seu tom não era agressivo, mas firme; e no entanto Coy sentia essa firmeza como diabolicamente agressiva (pág 151)
Já o marinheiro Coy o autor faz questão de deixar bem claro que ele não é muito inteligente e um tanto comum, caindo um pouco no estereótipo de marinheiro que já observei antes em outros livros: solitário, prefere o mar, sempre fugindo da terra, bruto. Já os vilões estão ali só para colocarem uma mínima tensão na trama, nada muito importante.
Não, não consigo recomendar ‘A Carta Esférica’ para ninguém. Cansativo e enfadonho, dificilmente agradará. Se o autor ao menos tivesse o bom senso de deixar o texto mais enxuto teria sido um bom livro.

[...] com algumas surpresas muito boas (Eu, robô, Feios, Sob Mil Disfarces) e outras bem medianas (A Carta Esférica, Em uma noite sem luar, Histórias Extraordinárias). Acabou também que li bem menos do que [...]