O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino

Mini impressões para um mini livro :)

Uma freira confinada num convento cumpre a penitência de narrar a bizarra história de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro que se distingue pela impecável armadura branca – e pelo fato de não existir. Por defender a virgindade de uma donzela, Agilulfo se tornou paladino de Carlos Magno, posição que exerce com seriedade extrema. Mas aquele feito heróico é posto em dúvida. Para comprová-lo, Agilulfo sai em busca de uma virgindade perdida quinze anos atrás , e no caminho viverá aventuras engraçadíssimas, dignas de um ótimo romance de cavalaria às avessas.

É meio complicado de falar sobre ‘O Cavaleiro Inexistente’, já que ele não sabe muito bem o que quer ser. A trama fica saltando entre os vários personagens, só que nenhum deles se desenvolve suficientemente bem… fica a impressão de algo incompleto e um tanto quanto sem propósito.

O tema principal é a banalidade de atos supostamente nobres e importantes, como guerras e heroísmo, tudo isso num viés cômico. Os personagens são superficiais e meio clichês, mas mesmo assim são interessantes, na medida possível dos acontecimentos. Agilulfo mesmo é somente uma armadura que se move e é um cavalheiro metódico, muito chato e irritante por sinal, já que não tem uma “parte humana”. Já Bradamante é a cavalheira obcecada pela perfeição, enquanto ela mesma demonstra inúmeros defeitos. E Rambaldo, cavaleiro que busca uma vingança sem sentido… entre outros menores personagens.

A escrita de Calvino é leve e de fácil leitura, o texto flui bem. O único problema é a curta duração da trama, sendo que a história fica saltando entre os personagens, sem desenvolver. Eu mesmo esperava que Agilulfo fosse melhor trabalhado e suas origens fossem explicadas, assim como a maioria dos outros personagens, mas o foco fica por conta da trama.

Nada excepcional, “O Cavaleiro Inexistente” é um interessante passatempo.

Agilulfo arrasta um morto e pensa: “Ó morto, você tem aquilo que jamais tive nem terei: esta carcaça. Ou seja, você não tem: você é esta carcaça, isto é, aquilo que às vezes, nos momentos de melancolia, me surpreendo a invejar nos homens existentes. Grande coisa! Posso bem considerar-me privilegiado, eu que posso passar sem ela e fazer de tudo. Tudo – se entende – aquilo que me parece mais importante; e muitas coisas consigo fazer melhor do que aqueles que existem, sem os seus habituais defeitos de grosseria, aproximação, incoerência, fedor. É verdade que quem existe põe sempre alguma coisa de seu no que faz, um sinal particular, que não conseguirei jamais imprimir. Mas, se o segredo deles está aqui, nesse saco de tripas, muito obrigado, não me faz falta. Este vale de corpos nus que se desagregam não me prova mais que arrepios que o açougue do gênero humano vivo” (págs 49-50)

Admirável Idiota, de Shusaku Endo

Um homem que ama aos outros com a simplicidade do seu coração aberto, que confia nos outros, não importa quem eles sejam, mesmo quando é enganado e traído – um homem desses, no mundo de hoje, provavelmente é considerado idiota. E Gaston é assim. (pág 177)

Quebrando um pouco o ritmo de leitura, decidi ler “Admirável Idiota”, parecia ser um livro bem leve e não me enganei.

Um romance leve e pleno de humour, relatando-nos a história de um homem simples que ama os outros e confia em todos, e que, embora enganado e traído, mantém acesa a sua chama de amor e esperança. Homens assim, no mundo atual, são geralmente tidos como idiotas. Mas Gaston Bonaparte, um francês vivendo no Japão moderno, é um idiota fora do comum – um admirável idiota!

Admirável Idiota é uma mistura de assuntos, mistura essa agradável até certo ponto. Tudo começa quando Takamori recebe a notícia de que um francês que ele já tinha se correspondido por carta anteriormente estava indo para o Japão, sendo que este francês diz ser descendente de Napoleão Bonaparte. Sendo assim Takamori mobiliza a família a receber o nobre visitante… mas quando o indivíduo, de nome Gaston Bonaparte, chega ao Japão todos descobrem que ele mal lembra a nobreza e é um completo idiota e só consegue fazer trapalhada atrás de trapalhada, chegando a se envolver em situações muito complicadas e perigosas.

A impressão que eu tive inicialmente era que Gaston era taxado de idiota não por conta de ser ‘bobo’, mas sim por ele não conseguir compreender completamente a língua japonesa ao chegar ao Japão. Sim, não é somente por conta disso que ele é um idiota, mas também por conta do decorrer dos fatos e das ações escolhidas por ele. Gaston é um personagem simples e amável, que vai amolecendo todos os outros que se relaciona com ele, sendo que sua condição de “idiota” se dá por conta dele depositar sua confiança completamente nos outros.

Mesmo com situações iniciais bem leves e divertidas, o livro na verdade retrata um Japão pós guerra sujo, preconceituoso e sombrio. O autor se esforçou o máximo para mostrar um lado incomum do Japão. Outra questão abordada é o choque cultural, muito comum para pessoas que vão para outro país, ainda mais numa época que não existia maneiras de conhecer melhor a cultura de lugares distantes.

O que não gostei foi a progressão da história, assim como uma sensação de falta de propósito da trama. Começa como algo divertido (bem apoiado no choque cultural) e depois desenvolve em uma série de acontecimentos casuais. Os personagens mal evoluem e a motivação de seus atos são fracas também, salvo um único personagem que já era relativamente bem construído desde o início. E o final é bem enigmático, na verdade preguiçoso, já que usa de recursos para tentar esclarecer detalhes da trama de maneira rápida.

A melhor questão abordada por ‘Admirável Idiota’ é com certeza a simplicidade e confiança. Em um mundo que sempre as pessoas estão lutando para conquistar mais, ter mais, ser sempre o melhor, Gaston seria muito humilhado por ser simplório. É uma reflexão muito interessante sobre o quanto ser simples e comum é bom, um convite a pensar se não estamos somente acompanhando o rebanho de maneira cega e esquecendo de dar valor às coisas e pessoas realmente importantes.

Mesmo que seja uma mistura meio desbalanceada, ‘Admirável Idiota’ foi uma ótima leitura. A trama tem problemas de desenvolvimento, mas a reflexão proposta consegue compensar as falhas.

A Carta Esférica, de Arturo Pérez-Reverte

No alto-mar o ar era fresco, as feridas cicatrizavam mais depressa, e o silêncio era suficientemente intenso para tornar suportáveis as perguntas sem resposta e justificar os próprios silêncios. (pág 28)

Visitando um sebo recentemente acabei encontrando ‘A Carta Esférica’. Li a descrição, parecia muito interessante, levei. Uma pena que ele me decepcionou muitíssimo.

Um marinheiro desempregado e uma historiadora se unem para encontrar um tesouro que naufragou com um barco no ano de 1767.
De posse de mapas e instrumentos náuticos do século XVIII, bem como documentos históricos da Marinha e da Companhia de Jesus, marinheiro e historiadora vão atrás do tesouro perdido no Mediterrâneo.

‘A Carta Esférica’ tinha tudo para ser ao menos bom, não tem muito erro quando se trata de caçadas a tesouros perdidos. O problema ficou justamente por conta da maneira que o autor conduziu a história, o que a deixou massiva e enfadonha.

O principal problema é a mania do autor de escrever coisas fora do contexto, tentando enriquecer os personagens com flashbacks meio aleatórios, mas isso faz é deixar a narrativa confusa e cansativa. Cansativa pois os trechos são longos e com floreios um tanto quanto desnecessários, é difícil as vezes manter o foco, sem contar que eles são inseridos ao acaso dentro do texto, quebrando o fluxo da narrativa.

Outro problema é a insistência em focar no naufrágio, em seus envolvidos e nos fatos históricos relacionados ao invés de desenvolver a trama do presente. O autor parece tão obcecado por isso que o naufrágio é mostrado várias e várias vezes durante o texto, mesmo eu já sabendo de cor os fatos. Acabou que eu sabia muito bem o que aconteceu com o navio Dei Glória e seus tripulantes, mas não ficou muito claro certas motivações dos personagens principais.

Some isso ao texto prolixo, no qual o autor parece não ter muito controle do narrador de foco errático, e uma enxurrada de termos técnicos sem explicação e o caos está feito.

Ao menos gostei muito de Coy e Tánger Soto, os personagens principais. Mesmo com tantos desvios na narrativa os dois são muito bem construídos. Gostei principalmente da personalidade de mulher “forte, independente e misteriosa” de Tánger, alguém que está sempre no controle, por mais que no fim das contas não dá pra entender muito bem certas atitudes dela. Como em um trecho no qual ela meio que se descreve (a personalidade dela é a da mulher com o rifle):

    -Vendo esses filmes (de faroeste) – prosseguiu -, percebi que há dois tipos de mulher: a que começa a gritar  quando os apaches atacam, e a que apanha um rifle e dispara pela janela.
Seu tom não era agressivo, mas firme; e no entanto Coy sentia essa firmeza como diabolicamente agressiva (pág 151)

Já o marinheiro Coy o autor faz questão de deixar bem claro que ele não é muito inteligente e um tanto comum, caindo um pouco no estereótipo de marinheiro que já observei antes em outros livros: solitário, prefere o mar, sempre fugindo da terra, bruto. Já os vilões estão ali só para colocarem uma mínima tensão na trama, nada muito importante.

Não, não consigo recomendar ‘A Carta Esférica’ para ninguém. Cansativo e enfadonho, dificilmente agradará. Se o autor ao menos tivesse o bom senso de deixar o texto mais enxuto teria sido um bom livro.