Eu, Robô, de Isaac Asimov

A Maquina é apenas uma ferramenta, apesar de tudo, que pode ajudar a humanidade a progredir mais rápido, tirando de suas costas a carga dos cálculos e interpretações. E o trabalho do cérebro humano continua o que sempre foi: descobrir novos dados para serem analisados e conceber novos conceitos para que sejam testados (pág 310)

Eu sinceramente nunca fui muito interessado em robôs e ficção científica em geral, mas Eu, Robô me agradou muitíssimo.

Eu, Robô é uma coletânea de 9 contos que mostram a evolução dos robôs num planeta Terra fictício. Estas histórias são contadas por Susan Calvin, uma “robopsicóloga” que trabalhou durante toda sua vida na U.S. Robôs e Homens Mecânicos.

Todos os contos utilizam as Três Leis da Robótica como principal foco:

  • 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
  • 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.

Excluindo o primeiro conto (que é nada mais do que uma simples introdução), todos eles apresentam um problema com um robô e normalmente a solução é baseada nas leis. E o maior destaque pra mim foi justamente isso, boa parte dos problemas são bem inusitados e fiquei me perguntando como iam ser resolvidos… e eles são desvendados de maneira inteligente e elegante, todas as explicações fazem sentido.

Fiquei também com a impressão que os humanos são meio que coadjuvantes, já que estes são subdesenvolvidos como personagens, enquanto os robôs são bem construídos e dominam as tramas. Em muitos momentos eu até me confundia entre os personagens humanos, já que alguns são muito parecidos. Asimov até tentou desenvolver alguns personagens, como Susan Calvin, mas pra mim o resultado ficou mediano.

O ponto fraco fica por conta de alguns diálogos meio confusos, principalmente por se tratarem de termos científicos fictícios criado por Asimov. Deu a impressão que ele utilizou desses termos justamente para dar um ar “futurístico” aos contos. Mas não achei que fosse algo que atrapalhasse tanto, já que o foco principal eram os robôs.

No fim das contas foi muito bom ver histórias em que robôs são mais humanos e não somente “máquinas malignas e assasinas” como Hollywood gosta de pregar. Eu, Robô é uma ótima leitura, não importa se o leitor se interessa por ficção científica ou não.

Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden


Girando com minha cabeça inclinada em certo ângulo eu podia estar indagando: “Onde passaremos o dia juntos, Presidente?” Estendendo meu braço e abrindo meu leque eu dizia como estava grata por ele ter me honrado com sua companhia. E quando fechava de novo o leque mais tarde naquela dança, eu estava lhe dizendo que nada na vida me interessava mais do que agradar a ele. (pág 165)

Bem, Memórias de uma Gueixa foi uma surpresa bem agradável. Eu não esperava nada dele e no fim acabei gostando muitíssimo.

Em Memórias de uma Gueixa acompanhamos a vida de Chiyo, garota que é brutalmente retirada de sua simples vila natal e é levada a Quioto para ser uma gueixa. Chiyo, que depois passa a ser Sayuri, passa por todo tipo de dificuldade enquanto alimenta um amor platônico que dura a vida toda. No fim Sayuri acaba se tornando uma das maiores gueixas de Quioto.

A história de Sayuri é extremamente interessante e apaixonante, principalmente pelo fato da protagonista ser extremamente carismática e verossímel. Sim, o foco é um tanto que no sofrimento, mas o que me fez ler mais e mais era querer ver Sayuri superar tudo. Outra questão que gostei muitíssimo foi conhecer todo o ritual por trás de uma gueixa, é algo repleto de tradição e excelência, ao mesmo tempo que leva a uma vida relativamente triste.

O único defeito fica por conta de alguns pontos um pouco extensos de maneira desnecessária, seria mais agradável se alguns trechos fossem mais curtos. E também gostaria que alguns termos tivessem explicação/tradução, por mais que a maioria deles sejam detalhados muito bem.

Por fim é uma história de amor muito bonita, um convite para conhecer melhor o incrível mundo das gueixas.

Livro das Mil e uma noites – Volume 1

Na noite seguinte, Dinarzad disse para a irmã: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos o restante da sua história”, e Sahrazad respondeu: “Com muito gosto e honra”.  (pag. 160)

As mil e uma noites é um dos livros mais famosos (senão o mais famoso) da cultura árabe e sempre tive curiosidade de saber do que se trata Partindo disso consegui finalmente iniciá-lo.

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Sahrazad, esposa do rei Sahriyar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando-as matar na manhã seguinte. Sahrazad consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Sahrazad interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites – as mil e uma do título – ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Bem, esse livro me surpreendeu tanto positivamente quanto negativamente.

O maior destaque pra mim é a edição impecável desse livro, que é o primeiro volume de três. Todas as páginas têm um espaço permanentemente reservado para as notas de tradução, notas essas que no começo atrapalham muito, mas contêm informações muito interessantes. Só achei desinteressantes as notas que falam estritamente da tradução do árabe, não são legais pra um leitor normal e até quebram um pouco o ritmo de leitura. Os anexos são adições interessantes também. Tudo isso numa capa dura muito legal.

A história em si me deixou bem decepcionado. Cada noite Sherazad conta um trecho de uma história e na maioria das noites ela deixa um gancho (o que é justificável no contexto da história do rei), sendo que acontecem histórias dentro de histórias. Os contos são até interessantes, mas chega um momento que eles se tornam muito similares e extremamente previsíveis. Por exemplo: em várias das histórias alguém é transformado em um animal, sendo que a causa disso e a solução são bem parecidas sempre… Isso tudo tornou a leitura bem cansativa e um tanto quanto arrastada. Outra questão que torna a leitura meio cansativa é a repetição de termos o tempo todo, como por exemplo “por Deus” e “absolutamente imperioso” (por mais que no fim gostei disso, dá uma identidade legal pro texto). Ah, fiquei “assombrado” com algumas coisas explícitas no texto, não tinha nem ideia que o mundo árabe era tão sem pudores e “frio” assim.

No fim das contas acredito que não li esse livro de maneira correta, intercalado com alguma outra leitura teria sido mais interessante (por mais que os ganchos deixariam essa tarefa um tanto quanto complicada). Mas nada disso tira o mérito de ser um livro interessante e que permite conhecer bem a cultura árabe, tanto é que pretendo sim ler os outros dois volumes. Mesmo com os problemas eu gostei muito de tê-lo lido.