A Vida de Pi, de Yann Martel

Eu sei o que os senhores querem. Uma história que não os surpreenda. Que confirme o que já sabem. Que não os faça enxergar mais alto, nem mais além, e tampouco de modo diferente. Querem uma história simples. Uma história imóvel. Querem factualidade seca, sem fermento. (pg. 336)

Pi Patel é um garoto indiano que tem uma vida tranquila na Índia. Seu pai é o dono de um zoológico, sendo assim ele já está acostumado com toda essa vida com os animais. Ao contrário de outros garotos da sua faixa etária, Pi está muito interessado em estar perto de Deus, sendo assim ele segue tanto o hinduísmo quanto o islamismo e cristianismo (fato esse que o faz passar por algumas complicações, ainda mais por conta de sua família não seguir nenhuma religião). Tudo muda quando o pai de Pi decide se mudar para o Canadá por conta de dificuldades na Índia. A família vende então os animais do zoológico e viaja em um cargueiro tendo como destino o Canadá. Acontece que o cargueiro naufraga e somente Pi e alguns dos animais que eram levados com ele sobrevivem em um bote. Desses animais somente um tigre de Bengala sobrevive… e Pi acaba tendo que dividir o bote salva-vidas com ele. Pi decide então que o tigre é vital para a sua própria sobrevivência, sendo assim ele passa a cuidar dele. E ele sobrevive pra contar a história.

Mais uma vez uma premissa me despertou a curiosidade. Fiquei extremamente instigado pra ver como uma história dessas se desenvolveria. Mesmo com algumas decepções eu gostei muito do resultado.

O começo é ruim, lento e sem muito sentido pra quem sabe a premissa do livro. Os capítulos são truncados também, com algumas longas e tediosas explicações, o que deixa a leitura cansativa… Mas até dá pra entender a parte inicial como uma preparação para o fato principal da trama, mas poderia ser um pouco mais curto sim. Mas o naufrágio acontece e o ritmo não muda muito… e continua assim até o fim. A escrita de Martel não é ruim, mas me pareceu um pouco nebulosa, tive dificuldade de construir mentalmente boa parte das descrições dele.

Mas as partes boas conseguem compensar os pontos ruins. Os acontecimentos interessantes são muito bons e instigantes, assim como a tensão constante que é a vida de Pi no bote. Martel teve o cuidado de construir bem a relação entre Pi e o tigre, assim como os motivos que fazem Pi manter o tigre vivo. A parte inicial, sobre a formação de fé de Pi, é uma reflexão interessante sobre o real papel das religiões na vida da sociedade, assim como a discriminação religiosa. E durante boa parte das passagens existem questões filosóficas envolvidas de maneira sutil, mesmo que com fatos aparentemente banais. Por fim é também inspirador, uma incrível história de superação, com um final que é muito mais do que aparenta. Ah, Martel construiu tão bem Pi que ele parece perigosamente real (em vários pontos eu até me perguntei se não era baseado em fatos reais).

O mais interessante de tudo foi pesquisando sobre o livro descobri que Yann Martel foi acusado de plágio por um autor brasileiro (Moacyr Scliar) logo depois do livro ter recebido um prêmio.  Mas como nunca nem ouvi falar de “Max e os Felinos” de Moacyr Scliar eu não tenho como dizer se isso é fato ou não… por mais que Yann Martel cite Scliar como “centelha de inspiração” nas notas do autor.

“A Vida de Pi”, no fim das contas, é muito interessante e me prendeu bem (mesmo nos pontos lentos). As lições da história são muito boas, assim como o protagonista e sua relação com o tigre. Muito bom!

O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss

Quando na lareira azula o fogo
O que fazer? O que fazer?
Correr para fora e se esconder.

Se a luzente espada enferrujar,
Em quem confiar? Em quem confiar?
Sozinho permaneça; como pedra, enrijeça.

Vês a mulher de neve caiada?
Silente vem e sai calada.
Qual é seu plano? Qual é seu plano?
Chandriano. Chandriano.

Não sei muito bem como encontrei O Nome do Vento… Acho que foi em algum site qualquer ou então a bonita capa que me chamou a atenção. De qualquer maneira foi um ótimo achado.

O Nome do Vento ~ A Crônica do Matador do Rei ~ Primeiro Dia é o primeiro livro da trilogia “A Crônica do Matador do Rei”. Em um mundo chamado Quatro Cantos, em uma vila qualquer, Kote é o proprietário da hospedaria Marco do Percurso e vive tranquilamente. Após um dos membros da vila ser atacado por uma criatura que todos acreditam ser um demônio, Kote se torna preocupado e sombrio com a situação… e para completar chega em sua hospedaria o chamado Cronista, homem que vive de colecionar histórias importantes de todo o mundo. O Cronista descobre então que Kote é na verdade Kvothe, uma espécie de lenda viva e consegue convencê-lo a contar e registrar toda a sua história. A partir disso acompanhamos a trajetória da vida de Kvothe, partindo de sua vida nos Edena Ruh (uma espécie de grupo itinerante de teatro) até todos os seus grandes feitos.

O primeiro ponto que eu notei e que me fez querer ler o livro rapidamente foi o estilo de escrita de Rothfuss. Tudo é escrito de uma maneira que prende de tal maneira e que faz você não parar a leitura, mesmo que o texto seja bem extenso, tudo fluindo muito bem. Em seguida temos Kvothe: ele não é um herói tradicional (se é que é um herói) e não tem problemas em fazer o que deve ser feito – mesmo que isso inflija em mentir, fingir e abusar das possibilidades. Em suma ele é extremamente cativante, ousado, humano. A história pode parecer clichê no começo, mas depois se revela interessante, principalmente por conta de Kvothe e seus feitos. E por fim gostei muitíssimo de todo o universo criado por Rothfuss, já que ele criou um completo e interessante mundo, com uma porção de detalhes como línguas, raças, locais e toda uma cultura.

Pra mim tinha tudo para ser perfeito, mas algumas coisas me decepcionaram um pouco… Ok, é um universo vasto e interessante, mas faltou explorar melhor algumas coisas e explicar tantas outras. Na verdade seria interessante um glossário ou anexo detalhando termos e ideias utilizados durante a história, já que muitas vezes eu fiquei me perguntando o significado de alguns termos importantes (fica a impressão que o autor meio que infere que o leitor já sabe o significado, mesmo sem ter explicado). Outra questão é sobre o volume do texto, muitos trechos ficariam bem mais interessantes (e menos cansativos) se fossem mas concisos, vez ou outra dá a impressão que o autor está meio que enrolando. Também fiquei um pouco intrigado com o decorrer e “desfecho” da história, já que a trama é pausada bem num anticlímax e muitas coisas que eu pensei que seriam resolvidas nesse volume foram deixados para o próximo.

No fim das contas gostei muitíssimo de O Nome do Vento, fazia muito tempo que eu não lia uma história de fantasia heroica (por mais que não seja tão “heroica” assim) tão boa. Espero ansiosamente pelos dois próximos volumes, torcendo para que a qualidade seja mantida.

*Leia aqui um trecho do livro