Archive for Março 2007
Reportagem estendida


Uma família é brutalmente assassinada nos EUA na década de 50 e o jornalista Truman Capote se aproveita disso para escrever A Sangue Frio, um romance-reportagem.
A família Clutter era uma típica família americana: pacata, vista com bons olhos, íntegra. Não fazia mal a ninguém. Mesmo com estas características, a família foi assassinada por uma dupla de criminosos, que acreditavam ter executado “o crime perfeito”. Ao contrário do que pensavam, os assassinos foram descobertos e condenados à pena de morte vários anos após o crime. Capote redescreve com a maior quantidade de detalhes possível a história da família Clutter e seus assassinos Perry Smith e Dick Hicock.
A narrativa é extremamente descritiva, tudo é contado em minuciosos detalhes. Não existe também uma quebra constante, sendo assim tudo é contado em pouquíssimos e longos capítulos. O estilo de escrita do autor as vezes cansa, como a quebra de sentenças, não tão longas, em várias frases menores.
O problema de A Sangue Frio é que ele está mais para uma reportagem extremamente detalhada e longa do que para um romance. É um acompanhamento da trajetória dos assassinos e uma coleção de depoimentos e dados montados de tal maneira que parece um romance. Quem não está acostumado com o estilo pode se assustar e largar o romance logo depois de algumas poucas páginas. Outro problema de ser mais uma reportagem do que um romance é que a história é o mais previsível possível, não existem reviravoltas e muito menos mistérios para o leitor tentar desvendar, tudo acontece da maneira mais simples e direta possível. Por outro lado a personalidade dos assassinos é explorada e exposta ao máximo, tornando-os bem reais.
Mesmo sendo extremamente cansativo, A Sangue Frio recompensa o leitor com um nível de detalhamento absurdo e com dois personagens muito bem construídos. Ficou faltando somente um pouco mais de ficção para não parecer somente uma gigantesca reportagem sobre um fato específico.
Muito gelo e dois dedos de vingança


O plano é simples: seqüestrar a maldita avó e faze-la sentir na pele todos seus conceitos rígidos, assim como sentiram suas netas Roberta e Suzana. As irmãs, que eram sempre alvo de provocações na escola, montaram este plano para se vingarem de sua avó que as atormentava e “torturava” na infância, em uma casa de praia. Acompanhadas de Renato, o advogado boboca, as irmãs prosseguem no seu plano de vingança.
Essa é a premissa básica de Muito gelo e dois dedos d’água, comédia nacional de 2006. A história gira em torno da vingança, temperada com um pouco de humor negro e muita maluquice. Muito pouco do passado das personagens principais é contado, mas este detalhe não é de muita relevância na história. Cada personagem conseguiu ser representado sem problemas, cada um com uma personalidade totalmente diferente do outro. Destaque para Mariana Ximenes que consegue espantar muita das mocinhas boas-bobas de sua carreira com a desbocada Roberta.
A fotografia e trilha sonora são simples, cumprem bem o seu papel. Algumas cenas da história, principalmente a infância de alguns personagens, são retratadas através de cenas de animação e ficaram muito boas e interessantes. Já outras não ficaram muito boas, pois é fácil perceber que foram gravadas em estúdio.
No geral temos um filme simples, mas que diverte muito. É uma ótima pedida pra quem quer algo só pra relaxar, nada de tramas confusas.
Além do bem e o mal


Beyond Good & Evil é um jogo de aventura lançado para todas as plataformas “de mesa” em 2003.
Jade é uma fotógrafa freelancer que vive com o seu “tio” Pey’j (que é um porco-humanóide) no planeta Hillys. Hillys está passando por uma crise: uma raça alienígena chamada DomZ está atacando o planeta constantemente, raptando seus habitantes e destruindo tudo. O governo do planeta afirma que tudo está sobre controle com a ajuda das Alpha Sections, espécie de exército do lugar. Jade então recebe uma proposta de trabalho simples: tirar fotos de uma criatura dentro de uma caverna, nada de mais. A partir disso Jade começa a se envolver com uma organização que afirma que as Alpha Sections não está tentando impedir a invasão alien, mas sim os ajudando. Cabe agora a Jade conseguir evidência suficiente para convencer os habitantes de que os DomZ não estão agindo sozinhos.
BG&E tem ótimos gráficos para a época em que foi lançado. Os modelos são bem trabalhados e os efeitos de iluminação são muito convincentes, já a movimentação dos personagens não é tão natural (Jade parece bem artificial em certos movimentos), mas nada que estrague a experiência.
A jogabilidade é variada e ajuda a quebrar e diversificar o ritmo. Na maior parte do tempo Jade estará explorando locais e resolvendo os variados puzzles. Quando inimigos aparecem inicia-se um combate em que Jade utiliza um bastão para atacar as criaturas. O estilo de batalha é parecido com Zelda e similares, mas bem mais simples. Os combates também não são muito freqüentes. Outro momento é a espionagem: Jade tem que percorrer vários lugares sem ser vista por guardas e câmeras. Existe também sempre um personagem npc que auxilia Jade nas batalhas e puzzles.
A dublagem é competente, mas não é nada além disso, parecendo artificial muitas vezes. A trilha sonora é muito boa e ajuda a compor o clima necessário em cada cena. São músicas que vão de belos instrumentais a composições techno. Os sons cumprem o seu papel, sem destaques.
A grande maioria das personagens são extremamente carismáticas, mas infelizmente a personalidade da grande maioria foi mal trabalhada. Nem mesmo Jade e Pey’j são bem trabalhados, com poucos detalhes sobre suas origens. A história também é simples e com poucas reviravoltas, mas prende.
Não são muitas localidades que podem ser visitadas, mas isso é compensado com algumas sidequests como, por exemplo, tirar fotos de todos os animais de Hillys e corridas de hovercraft. Existe também uma sidequest que só pode ser acessada através do site oficial, assim como um ranking mundial.
Mesmo com as baixas na história, Beyond Good & Evil é um jogo imperdível. É uma pena que pouquíssima gente tenha jogado. É relativamente curto, mas vale a pena. Boatos apontam para uma continuação, o que seria ótimo para esclarecer detalhes do enredo. O melhor mesmo é deixar os preconceitos de lado e se divertir com este ótimo jogo =]



